Introdução
Abre o telemóvel para descansar cinco minutos. Passa fotografias de férias, corpos, casas e carreiras que parecem estar sempre um passo à frente da sua. Quando pousa o telemóvel, fica uma sensação difusa de que, de alguma forma, não está a fazer o suficiente. Não sabe bem porquê, mas sente-se pior do que antes.
Esta sensação tem nome e tem explicação. Não é fraqueza nem falta de força de vontade. É o efeito da comparação, e as redes sociais são o terreno perfeito para ela crescer.
Não é o tempo de ecrã, é a comparação
Durante anos, culpou-se o número de horas ao telemóvel. A investigação mais recente conta uma história mais precisa: o tempo total online tem, em média, uma relação pequena e inconsistente com o bem-estar. O que muda tudo é o que fazemos nesse tempo.
As redes tornam-se relevantes para a ansiedade e para a tristeza quando ativam a comparação social e essa comparação é acompanhada de uma dificuldade em regular o que sentimos (estudo publicado na Nature Scientific Reports, 2026). Ou seja, o que pesa é menos o ecrã em si e mais a forma como nos comparamos com o que lá está, e o que fazemos com isso por dentro.
Porque a comparação nas redes é uma armadilha
A tendência para nos avaliarmos por comparação com os outros é humana e antiga; foi descrita pela psicologia há mais de meio século (Festinger, 1954). O que as redes fizeram foi amplificá-la a uma escala sem precedentes.
O que vemos no ecrã é um resumo editado: os melhores momentos, os melhores ângulos, as vidas nas suas versões mais polidas. Comparamos os nossos bastidores, com todas as dúvidas e cansaços, com o espetáculo dos outros. É uma comparação sempre desigual, quase sempre para cima. Não admira que, como diz a expressão, a comparação seja a ladra da alegria, uma ideia que a investigação sobre o Instagram confirmou: ver publicações de estranhos tende a piorar o humor (de Vries e colegas, 2018).
Como a comparação se transforma em ansiedade
A comparação para cima alimenta a inveja, a insatisfação com o próprio corpo e a sensação de estar a ficar para trás. Junta-se o medo de estar a perder algo, o chamado FoMO (do inglês fear of missing out), que nos prende ao ecrã à procura de mais. E quanto mais frágil está a autoestima, mais nos comparamos, num ciclo que se alimenta a si próprio.
Os números acompanham a experiência. Uma meta-análise recente, com mais de 26 mil estudantes, encontrou uma associação clara entre o uso problemático das redes e a ansiedade, a depressão e o FoMO, e uma relação inversa com a autoestima (PLOS One, 2025). Em Portugal, um estudo da Dove concluiu que 86% dos jovens admitem sentir-se dependentes destas plataformas, um valor acima da média europeia.
A pressão silenciosa sobre as mulheres
A comparação não pesa por igual. Vários estudos apontam que as mulheres sentem mais o impacto das redes na ansiedade, em parte pela pressão sobre a imagem e o corpo, em parte por um tipo de comparação específico: o da vida que "devia" estar a correr melhor.
As mães são um exemplo claro. Confrontadas com retratos idealizados da maternidade, muitas comparam-se com uma versão impossível de mãe sempre serena, sempre presente, sempre a dar conta de tudo (Kirkpatrick e Lee, 2024). A conclusão silenciosa, "todas as outras conseguem, só eu é que não", é injusta e desgastante, porque compara a realidade de uma pessoa com a encenação de muitas.
O que ajuda de verdade
Se o problema não é o tempo de ecrã, então "largar o telemóvel" não é, sozinho, a solução. O que a investigação sugere é trabalhar a relação com a comparação e a forma como regulamos as emoções que ela desperta. Alguns pontos de partida:
reparar no momento em que a comparação começa e no que sente no corpo quando acontece;
lembrar que está a comparar os seus bastidores com o resumo editado dos outros;
reduzir o consumo passivo, o rolar sem fim, e dar mais espaço ao que a faz sentir-se bem;
seguir menos contas que alimentam a comparação e mais as que informam ou inspiram sem pesar;
proteger momentos do dia sem ecrã, sobretudo à noite.
Quando a ansiedade já interfere no sono, no humor ou no dia a dia, faz sentido procurar apoio. Em consulta, mais do que reduzir horas de telemóvel, trabalha-se para compreender os gatilhos, questionar as comparações automáticas e desenvolver estratégias de regulação emocional que devolvem o controlo.
Na Clínica Dra. Gizela Silva. O acompanhamento psicológico de adultos com ansiedade, incluindo a ansiedade ligada à comparação e às redes sociais, é realizado por psicóloga inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses, em Vila Nova de Gaia. O foco é a regulação emocional e a construção de estratégias adequadas a cada pessoa.
Onde procurar apoio. SNS 24: 808 24 24 24, para aconselhamento de saúde, incluindo saúde psicológica. Em situação de perigo imediato: 112.