Introdução
O seu filho começou a arranjar desculpas para não ir à escola. Volta calado, dorme mal e, ao domingo à noite, a ansiedade aumenta. Quando tem Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) ou Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), nem sempre consegue pôr em palavras o que se passa no recreio, e é frequente os pais só perceberem o problema tarde.
As crianças com perturbações do neurodesenvolvimento estão mais expostas ao bullying do que os colegas. Não é uma impressão de pais preocupados, é um padrão documentado. Compreender porque acontece é o primeiro passo para proteger.
Porque é que estão mais expostas
A investigação internacional é consistente: as crianças com deficiência ou com perturbações do neurodesenvolvimento sofrem violência em contexto escolar cerca de duas vezes mais do que as restantes. Entre os perfis mais atingidos estão as crianças com PHDA e com PEA.
As razões estão ligadas ao próprio funcionamento neurológico, não a qualquer falha da criança:
Na PHDA, a impulsividade e a dificuldade em regular a reação tornam a criança um alvo acessível. Reage de forma intensa, e essa reação diverte quem provoca. A desatenção também a deixa à margem de combinações sociais que os colegas percebem sem esforço.
Na PEA, a leitura de intenções, ironias e regras sociais implícitas é mais difícil. A criança pode não perceber que está a ser gozada, ou perceber tarde. Interesses muito específicos e formas próprias de comunicar acentuam a sensação de ser diferente, que é o combustível habitual do bullying.
Em ambos os casos, a criança costuma ter menos aliados no grupo, o que reduz a proteção natural que os pares dariam.
Compreender isto muda a conversa em casa. O problema não é a criança ser demasiado sensível nem não saber defender-se. É estar numa situação de desvantagem que exige a intervenção dos adultos.
Sinais de que o seu filho pode estar a ser alvo
As crianças raramente chegam a casa e dizem que estão a ser vítimas de bullying. As mais novas podem nem ter vocabulário para o descrever. Nas crianças com PEA ou PHDA, esta dificuldade em relatar é ainda maior, e é comum mascararem o sofrimento na escola e só o mostrarem em casa, muitas vezes através do comportamento e não das palavras.
Vale a pena estar atento a mudanças persistentes como:
Recusa ou resistência súbita a ir à escola, quando antes ia sem problema.
Queixas físicas frequentes ao domingo à noite ou de manhã, como dores de barriga ou de cabeça, sem causa médica aparente.
Alterações no sono e no apetite.
Material perdido ou pertences danificados sem explicação.
Mais isolamento, irritabilidade ou crises em casa.
Regressão em competências que já tinha adquirido.
Deixar de falar dos colegas ou de querer participar em atividades de grupo.
A ter em conta. Nenhum destes sinais confirma, por si só, uma situação de bullying. Vários em simultâneo, e de forma prolongada, justificam observar com atenção e procurar compreender o que está a acontecer.
Bullying e cyberbullying: o que muda para a criança neurodivergente
O bullying assume formas diferentes: verbal, através de insultos e humilhações; físico; e social, quando a criança é deliberadamente excluída do grupo. A violência verbal é a mais frequente em contexto escolar, e a exclusão social é particularmente dolorosa para uma criança que já tem dificuldade em criar laços.
O cyberbullying funciona de outra maneira. Não tem recreio nem sinal de saída: acompanha a criança para casa, pelo telemóvel, a qualquer hora. Uma humilhação partilhada num grupo chega a muitas pessoas em minutos e permanece disponível. Para a criança neurodivergente, que já interpreta o mundo social com mais esforço, distinguir uma brincadeira de uma agressão online torna-se ainda mais confuso, e o impacto emocional prolonga-se.
O que fazer, passo a passo, junto da escola
A resposta a uma situação de bullying não deve depender apenas da criança. Cabe aos adultos agir, e há um percurso claro a seguir.
1. Registe o que observa. Anote datas, o que a criança contou com as próprias palavras, capturas de ecrã de mensagens em caso de cyberbullying, e fotografias de ferimentos ou de material danificado. Este registo será útil se for preciso formalizar a situação.
2. Fale com o diretor de turma ou o professor titular. Exponha o que está a acontecer, mostre o que registou e peça que fique documentado que reportou a situação.
3. Envolva a equipa de educação inclusiva. Se a criança tem medidas de suporte à aprendizagem ao abrigo do Decreto-Lei n.º 54/2018, a Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva da escola deve ser informada, para que a situação seja integrada no plano de apoio.
4. Formalize por escrito, se necessário. Se não houver resposta, contacte a direção da escola por escrito, descrevendo os factos e solicitando uma resposta dentro de um prazo razoável. Guarde cópia de tudo.
Mudar a criança de escola deve ser o último recurso, não o primeiro. Há situações em que é a decisão certa, sobretudo quando a escola demonstra repetidamente que não vai agir ou quando o impacto emocional é grave. Nesses casos, não é uma derrota, é proteger.
Como a avaliação e o acompanhamento psicológico ajudam
Perante uma situação de bullying, o acompanhamento psicológico atua em duas frentes. Junto da criança, oferece um espaço seguro para nomear o que sentiu e para reconstruir a autoestima e a confiança abaladas. Junto da família e da escola, ajuda a compreender o perfil da criança e a definir estratégias de apoio adequadas.
A avaliação do neurodesenvolvimento tem aqui um papel próprio. Permite compreender como a criança processa a atenção, a impulsividade e as situações sociais, e traduz esse perfil num relatório que a escola pode usar como base para as medidas de suporte. Compreender o funcionamento da criança é o ponto de partida para um plano de intervenção que responde às suas necessidades reais.
Na Clínica Dra. Gizela Silva. A avaliação e o acompanhamento de crianças com PHDA e PEA são realizados por psicóloga inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses, em Vila Nova de Gaia. O processo de avaliação é um ato clínico do psicólogo e inclui entrevista com os pais, aplicação de instrumentos específicos e a entrega de um relatório com recomendações.
Onde procurar apoio em Portugal
Se desconfia que o seu filho está a sofrer, não precisa de enfrentar a situação sozinha. Existem recursos de apoio disponíveis:
Linhas e recursos. APAV, Linha de Apoio à Vítima: 116 006 (dias úteis). SNS 24: 808 24 24 24, para aconselhamento de saúde, incluindo saúde psicológica. Observatório Nacional do Bullying: plataforma que recolhe e encaminha casos em contexto escolar. Em situação de perigo imediato: 112.
Se a criança demonstrar sinais de sofrimento profundo ou uma alteração marcada do humor, procure apoio de um profissional de saúde. Quanto mais cedo a situação for compreendida e acompanhada, mais fácil é ajudar a criança a recuperar.