Introdução
Sempre se sentiu um pouco à parte. Aprendeu cedo a observar os outros e a imitar o que era esperado, para não dar nas vistas. Por fora, funciona: trabalha, cuida de tudo, mantém as aparências. Por dentro, o convívio social deixa-a exausta, e há muito que se pergunta se o problema é dela.
Talvez lhe tenham dito que é tímida, demasiado sensível ou ansiosa. Talvez já tenha recebido um diagnóstico de ansiedade ou depressão que nunca explicou tudo. Em muitas mulheres, por baixo disto está algo que passou despercebido a vida inteira: a Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) no feminino.
Porque é que o autismo passa despercebido nas mulheres
Durante décadas, o autismo foi estudado sobretudo em rapazes. Os critérios e os instrumentos de avaliação foram construídos a partir de amostras masculinas, e o perfil feminino, mais subtil, acabou por não encaixar nos modelos clássicos. Muitas mulheres cresceram, por isso, sem nunca terem sido reconhecidas.
A isto junta-se a camuflagem social: a tendência, mais frequente e mais elaborada nas mulheres, para imitar comportamentos e disfarçar as dificuldades. E há ainda um efeito prático: como o sofrimento aparece por dentro, sob a forma de ansiedade ou depressão, são esses os diagnósticos que surgem primeiro, deixando o autismo por baixo, por explicar.
O panorama está a mudar. Durante muito tempo diagnosticava-se cerca de quatro homens por cada mulher; hoje a proporção aproxima-se de três para uma, à medida que se reconhece que o autismo no feminino se manifesta de forma diferente.
Sinais frequentes na mulher adulta
Não há dois percursos iguais, e nenhum sinal isolado significa autismo. Ainda assim, há um conjunto de experiências que se repete com frequência nas mulheres que só mais tarde reconhecem estar no espetro:
a sensação persistente de nunca encaixar por completo, de ter de fazer um esforço para parecer natural;
exaustão depois de situações sociais, mesmo as agradáveis, com necessidade de recolher e recuperar;
hipersensibilidade sensorial a luz, ruído, cheiros ou texturas;
interesses intensos e muito focados, por vezes discretos por serem socialmente aceitáveis;
necessidade de rotina e de previsibilidade, com desconforto perante mudanças inesperadas;
dificuldade com o não-dito das relações: a ironia, os subentendidos, as regras sociais implícitas;
ter sido descrita, ao longo da vida, como tímida, perfeccionista ou demasiado sensível;
já ter recebido diagnósticos de ansiedade, depressão ou PHDA que nunca explicaram tudo.
A ter em conta. Reconhecer-se em alguns destes pontos não é um diagnóstico. O que costuma fazer sentido é o padrão: quando estas experiências acompanham a pessoa desde sempre e pesam no dia a dia, vale a pena procurar compreender.
A camuflagem e o seu custo
A camuflagem, muitas vezes chamada pelo termo inglês masking, é o conjunto de estratégias que a pessoa desenvolve para se adaptar. Ensaiar conversas antes de sair, forçar o contacto visual, copiar a forma de falar e os gestos dos outros, esconder gestos repetitivos que ajudam a regular-se, evitar falar dos interesses para não parecer estranha.
Estas estratégias funcionam por fora, mas custam caro por dentro. Manter a máscara durante anos é como suster a respiração: consegue-se por algum tempo, não o dia inteiro, todos os dias, uma vida inteira. O custo acumula-se e aparece como um cansaço que não passa, ansiedade e, por vezes, um esgotamento profundo a que se chama esgotamento autista. É frequente ser só aqui, quando o corpo cobra, que muitas mulheres procuram ajuda.
Autismo e PHDA no feminino
O autismo e a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) coexistem com muita frequência. Muitas mulheres têm as duas condições, e os traços de uma podem esbater os da outra. Uma mulher que se reconhece na descrição da PHDA no feminino pode, afinal, estar também no espetro do autismo, e o contrário também acontece.
Por isso, olhar para o perfil como um todo, e não para um rótulo isolado, é o que permite compreender verdadeiramente como a pessoa funciona.
O peso, e o alívio, de um diagnóstico tardio
As mulheres no espetro apresentam, com mais frequência, ansiedade, depressão e outras dificuldades de saúde mental, muitas vezes tratadas de forma isolada, sem se perceber que fazem parte de um quadro maior. Anos a sentir-se inadequada, sem explicação, deixam marca.
Mas há outro lado. Para muitas mulheres, compreender que estão no espetro traz alívio e validação. O que antes parecia uma falha pessoal passa a fazer sentido, e torna-se possível construir estratégias mais respeitosas, mais alinhadas com a forma como realmente funcionam. Um diagnóstico tardio não muda quem a pessoa é; muda a forma como se compreende.
Onde procurar apoio. SNS 24: 808 24 24 24, para aconselhamento de saúde, incluindo saúde psicológica. APPDA: as associações portuguesas para as perturbações do desenvolvimento e autismo apoiam pessoas com PEA e as suas famílias. Em situação de perigo imediato: 112.
Se atravessa um período de grande sofrimento, procure apoio de um profissional de saúde. Compreender o que se passa é, muitas vezes, o primeiro passo para se sentir melhor.
Como funciona a avaliação
É comum encontrar online questionários de rastreio, como o AQ, o RAADS-R ou o CAT-Q. São úteis para organizar as suspeitas e perceber o esforço de camuflagem, mas não fazem um diagnóstico. O diagnóstico do autismo é clínico.
A avaliação parte da história de desenvolvimento e do funcionamento atual, através de entrevista clínica e de instrumentos específicos, e culmina num relatório com recomendações. O objetivo não é apenas atribuir um nome, mas compreender o perfil da pessoa, os seus pontos fortes e as suas necessidades, para orientar o apoio.
Na Clínica Dra. Gizela Silva. A avaliação e o acompanhamento de adultos com suspeita de PEA e de PHDA são realizados por psicóloga inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses, em Vila Nova de Gaia. O processo de avaliação é um ato clínico do psicólogo e inclui entrevista, aplicação de instrumentos específicos e a entrega de um relatório com recomendações.