Introdução
Pela primeira vez em muito tempo, a fome ficou quieta. Come menos sem aquela luta constante na cabeça, e sente algum alívio. Mas talvez esteja a pensar em parar a medicação, ou já a tenha parado, e a fome comece a regressar, acompanhada de uma pergunta que aperta: e se eu voltar ao que era antes?
Essa pergunta aponta para algo importante. Os medicamentos para emagrecer mudam a forma como o corpo sente a fome, mas não tocam nos motivos que, muitas vezes, nos levam a comer. E é aí que entra o trabalho psicológico.
O que os medicamentos GLP-1 fazem, e o que não fazem
Os medicamentos da classe GLP-1, como o Ozempic (semaglutida) e o Mounjaro (tirzepatida), atuam sobre os sinais de apetite: aumentam a saciedade, abrandam o esvaziamento do estômago e reduzem aquilo a que muitas pessoas chamam ruído alimentar, os pensamentos constantes e intrusivos sobre comida. Para quem passou anos com esse ruído, o silêncio é um alívio real.
Mas há um limite claro. Estes fármacos reduzem a fome física; não resolvem a fome emocional nem a relação que cada pessoa tem com a comida. A investigação é consistente neste ponto: usados de forma isolada, tendem a dar resultados abaixo do esperado, e funcionam melhor quando acompanhados de apoio psicológico e de mudança de hábitos. As decisões sobre a medicação são sempre do médico. O que se segue é sobre a parte emocional, que costuma ficar de fora da conversa.
Quando se para: porque a fome e a ansiedade voltam
Quando a medicação é interrompida, o apetite e o ruído alimentar tendem a regressar e, com eles, muitas vezes, o peso. Os estudos de seguimento mostram-no com clareza: boa parte do peso perdido costuma voltar no ano seguinte à paragem, sobretudo quando não há outro tipo de acompanhamento. Foi o que se observou no seguimento do estudo STEP 1, com a semaglutida, e no estudo SURMOUNT-4, com a tirzepatida.
A esta realidade fisiológica junta-se uma emocional. Se a relação com a comida não foi trabalhada durante o tratamento, os padrões antigos voltam a aparecer assim que a fome regressa. E há ainda um efeito subtil: muitas pessoas passam a atribuir à medicação todo o mérito da mudança e, ao pará-la, sentem-se inseguras, sem chão, como se perdessem o controlo. Essa dependência emocional do medicamento alimenta a ansiedade.
Fome física e fome emocional não são a mesma coisa
A fome física instala-se aos poucos, sente-se no corpo e acalma quando comemos. A fome emocional é outra coisa: surge de repente, ligada a uma emoção como a ansiedade, a tristeza, o tédio ou o stress, e não a uma necessidade do corpo. Pede muitas vezes um alimento específico, e comer, nesse momento, funciona como uma forma rápida de acalmar o que se sente.
É por isto que a medicação, sozinha, não chega a quem come sobretudo por razões emocionais. Ela baixa a fome física, mas a comida continuava a cumprir uma função: regular emoções difíceis. Enquanto essa função não for compreendida e substituída por outras formas de lidar com o que se sente, o padrão fica à espera de voltar.
A ansiedade de recuperar o peso
Há ainda um peso emocional próprio deste processo: o medo de voltar a engordar. Esse medo pode transformar-se numa vigilância constante, em culpa a cada refeição, e em prender o valor pessoal a um número na balança ou à própria medicação. Em vez de tranquilizar, este controlo apertado costuma aumentar a ansiedade e piorar a relação com a comida.
Trabalhar este medo faz parte do cuidado. Cuidar da saúde continua a importar; o que muda é deixar de o fazer com autocrítica e juízo permanente, para que cuidar de si deixe de ser uma fonte de sofrimento.
Como o acompanhamento psicológico ajuda
Há uma forma mais útil de olhar para a medicação: como algo que abre espaço. Com a fome física mais baixa, fica mais fácil observar, sem a urgência do costume, o que leva a comer e o que a comida está a fazer por si. Esse espaço é uma boa altura para trabalhar a raiz.
Em consulta, o foco é compreender os gatilhos emocionais, desenvolver formas de lidar com a ansiedade e o stress que não passem pela comida, e reconstruir uma relação mais tranquila com o comer e com o corpo, com menos culpa e mais compaixão. A terapia cognitivo-comportamental tem forte apoio científico no trabalho da alimentação emocional e da compulsão. Este acompanhamento não substitui o médico nem o nutricionista; soma-se a eles, num cuidado que olha para a pessoa como um todo, e não apenas para o peso.
Na Clínica Dra. Gizela Silva. O acompanhamento psicológico de adultos com ansiedade e com dificuldades na relação com a comida é realizado por psicóloga inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses, em Vila Nova de Gaia. O foco é a regulação emocional e a construção de estratégias adequadas a cada pessoa, em articulação com o acompanhamento médico e nutricional, quando existe.
Onde procurar apoio. SNS 24: 808 24 24 24, para aconselhamento de saúde, incluindo saúde psicológica. Em situação de perigo imediato: 112. Se sente que a relação com a comida se tornou uma fonte de sofrimento, ou se notou alterações de humor desde que iniciou a medicação, fale com um profissional de saúde. Compreender o que se passa é, muitas vezes, o primeiro passo para se sentir melhor.