Introdução
Talvez já tenha andado em terapia e sentido que não encaixava. As metáforas não faziam sentido, pediam-lhe para descrever emoções que nem sempre consegue nomear, e saía das sessões sem saber bem o que levar para casa. Ou talvez procure apoio, para si ou para o seu filho, e se pergunte se a terapia comum serve para uma pessoa neurodivergente.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens mais estudadas para dificuldades como a ansiedade e a depressão. Pode ajudar pessoas neurodivergentes, mas com uma condição: precisa de ser adaptada à forma como o cérebro de cada uma funciona.
O que é a terapia cognitivo-comportamental
A TCC parte de uma ideia simples: os pensamentos, as emoções e os comportamentos estão ligados, e mexer num deles influencia os outros. Em vez de se concentrar sobretudo no passado, trabalha o presente, com objetivos concretos e estratégias práticas que a pessoa pode aplicar no dia a dia.
É uma abordagem estruturada e com forte apoio científico no tratamento da ansiedade e da depressão. Por ser prática e orientada para objetivos, serve também como bom ponto de partida para trabalhar competências como a regulação emocional e a gestão do stress.
Onde a TCC ajuda quem é neurodivergente
Convém ser claro num ponto. A TCC não corrige nem faz desaparecer o autismo, ou Perturbação do Espetro do Autismo (PEA), nem a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Estes não são doenças a curar, são formas de funcionamento. O que a TCC pode fazer é ajudar com as dificuldades que muitas vezes os acompanham.
As pessoas neurodivergentes apresentam, com mais frequência, ansiedade e sintomas depressivos, muitas vezes fruto de anos a tentar encaixar num mundo pensado para outro tipo de cérebro. É neste território que a TCC tem mostrado resultados: no apoio à ansiedade, ao humor, à autoestima e à regulação emocional. Na PHDA, há ainda evidência de que ajuda a organizar o dia a dia e a gerir o tempo e as emoções.
Porque precisa de ser adaptada
A TCC clássica pressupõe algumas coisas que nem sempre se aplicam a uma pessoa neurodivergente: reconhecer e nomear emoções com facilidade, pensar de forma flexível, ler nas entrelinhas, tolerar a incerteza. Para muitas pessoas autistas ou com PHDA, é precisamente aí que estão os desafios.
Somam-se a dificuldade em identificar o que se sente por dentro, a chamada alexitimia, um funcionamento executivo diferente e a sensibilidade sensorial. Aplicar a TCC tal como vem no manual pode, por isso, deixar a pessoa a sentir que a terapia não é para ela. A TCC continua a poder ajudar; o que muda é a forma como é conduzida.
Como se adapta ao cérebro neurodivergente
As adaptações são bem conhecidas na investigação e fazem toda a diferença:
Linguagem concreta e explícita, sem depender de metáforas ou de subentendidos.
Apoios visuais e materiais escritos para acompanhar o raciocínio.
Mais tempo e mais estrutura, com passos claros e previsíveis.
Trabalho específico sobre identificar e nomear emoções, quando isso é difícil.
Ter em conta o funcionamento executivo, dividindo tarefas e apoiando a organização.
Respeitar as necessidades sensoriais e o ritmo de cada pessoa.
Envolver a família, quando se trata de uma criança ou adolescente.
Bem adaptada, a TCC deixa de ser um molde onde a pessoa tem de caber e passa a moldar-se a quem a procura.
A abordagem da clínica
É aqui que compreender o neurodesenvolvimento faz diferença. Adaptar a TCC a uma pessoa neurodivergente exige conhecer, à partida, como funciona o seu cérebro, para saber o que ajustar e porquê. O acompanhamento de adultos neurodivergentes parte desse entendimento.
Na clínica, o acompanhamento parte da compreensão do perfil de cada pessoa. A TCC é uma das abordagens utilizadas, adaptada a quem se tem à frente, e pode articular-se com a avaliação e, quando faz sentido, com outras intervenções. Procura-se sempre um plano ajustado à pessoa, e não a pessoa ajustada a um plano.
Na Clínica Dra. Gizela Silva. O acompanhamento psicológico de crianças, adolescentes e adultos neurodivergentes é realizado por psicóloga inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses, em Vila Nova de Gaia. A intervenção é adaptada ao perfil de cada pessoa e pode incluir abordagens de base cognitivo-comportamental.
Onde procurar apoio. SNS 24: 808 24 24 24, para aconselhamento de saúde, incluindo saúde psicológica. Em situação de perigo imediato: 112.