ARTIGO

Como contar aos filhos que os pais se vão separar

Preparar a conversa que a criança vai recordar.

Mesa de cozinha ao fim da tarde, com duas cadeiras juntas e uma terceira em frente.

Introdução

A decisão está tomada, ou está quase. E a pergunta que fica a girar não é sobre a casa, sobre os papéis ou sobre o advogado. É esta: como é que se diz isto a uma criança sem lhe partir o chão.

Não há forma de tornar a conversa indolor, e qualquer texto que prometa isso está a mentir. Há, no entanto, uma diferença considerável entre uma conversa preparada e uma conversa que acontece a meio de uma discussão. É sobre essa diferença que vale a pena falar, porque é a parte que ainda está nas suas mãos.

O que mais pesa não é a separação

Esta é a conclusão mais consistente de décadas de investigação sobre o tema, e a que mais alivia quem chega a esta decisão com culpa.

A maioria das crianças cujos pais se separam não desenvolve problemas duradouros. O que se associa a dificuldades a longo prazo não é a separação em si, é sobretudo o nível de conflito entre os pais e o grau em que a criança fica exposta a esse conflito, antes, durante e depois do processo (Amato, 2001; Kelly e Emery, 2003).

A consequência prática é clara e é exigente. Não é possível controlar a dor da separação, mas é possível controlar quanto conflito chega à criança. Discussões à porta fechada, o outro progenitor tratado com respeito à frente dos filhos, e mensagens que não passam pelas crianças fazem, no conjunto, mais diferença do que qualquer conversa isolada.

Um segundo fator conta quase tanto: a estabilidade das rotinas. Escola, atividades, amigos, horas de deitar. Quanto menos mudar de uma vez, melhor a criança absorve o que muda de facto.

Preparar a conversa

A conversa correr bem depende sobretudo do que acontece antes dela.

Falem os dois, em conjunto, sempre que for possível. Ouvir a mesma informação dos dois pais, ao mesmo tempo, comunica à criança que continua a existir uma equipa parental, mesmo que não exista um casal. Se for impossível estarem juntos, combinem previamente o que vai ser dito, para que a criança não receba duas versões.

Combinem a versão antes. Uma explicação simples, verdadeira, sem culpados e sem detalhes de adultos. "Decidimos que vamos viver em casas diferentes" chega. Não é preciso explicar porquê, e não é sequer possível fazê-lo de uma forma que uma criança consiga processar.

Escolham o momento. Um fim de semana, num sítio conhecido, com tempo depois para ficar com ela. Nunca à porta da escola, nunca antes de um exame, nunca à noite, quando a criança fica sozinha com aquilo até adormecer.

Digam a todos os filhos ao mesmo tempo, se houver mais do que um, e falem individualmente com cada um depois. Pedir a um irmão mais velho que guarde segredo do mais novo coloca-o num lugar que não é dele.

O que a criança precisa de ouvir

Há quatro mensagens que interessam mais do que todas as outras, e vale a pena repeti-las ao longo das semanas seguintes, porque uma criança não fixa isto de uma só vez.

Que a culpa não é dela. É preciso dizê-lo por palavras, de forma explícita. As crianças mais novas concluem quase sempre que alguma coisa que fizeram provocou aquilo, mesmo quando ninguém o sugere.

Que continua a ter dois pais. O casal acaba, a relação com cada um dos pais mantém-se. Digam-no e, sobretudo, demonstrem-no depois.

O que muda em concreto. Onde vai dormir, em que dias vai estar com cada um, se muda de escola, o que acontece ao cão. O concreto tranquiliza mais do que qualquer garantia abstrata. Se ainda não souberem alguma coisa, digam que ainda não sabem e que lhe dirão assim que souberem.

Que pode sentir o que sentir e perguntar o que quiser. Raiva, tristeza, alívio, indiferença aparente. Tudo cabe. Uma criança que não reage no momento não está necessariamente bem; muitas vezes está a proteger os pais.

O que evitar

Culpar o outro progenitor à frente da criança, mesmo de forma subtil, com um suspiro ou uma frase deixada a meio. A criança sente-se metade de cada um, e ouvir que metade dela é o problema tem custo.

Partilhar detalhes de adultos, sobre dinheiro, infidelidade ou processos. Não são informação que a criança consiga usar e transformam-na em confidente.

Pedir que escolha, direta ou indiretamente, com quem prefere estar, ou perguntar como corre a vida em casa do outro.

Usá-la como mensageira. Recados entre adultos são transportados por adultos.

Prometer o que não pode cumprir, sobretudo a reconciliação. Muitas crianças alimentam essa esperança durante meses, e cada frase ambígua prolonga-a.

Transformar o tempo de convívio em competição de presentes. O que a criança precisa é de rotina, não de programa.

Adaptar à idade

Até aos cinco anos. Frases curtas, muito concretas, centradas na rotina. Vão precisar de ouvir a mesma coisa várias vezes. É comum aparecerem regressões, como voltar a fazer chichi na cama, maior apego, birras ou dificuldades no sono.

Dos seis aos onze. É a idade em que a culpa é mais provável e em que surgem fantasias de reconciliação. Podem manifestar raiva, sobretudo dirigida a quem está mais disponível, e podem baixar o rendimento escolar. Precisam de saber que podem gostar dos dois sem trair nenhum.

Adolescência. Reagem com distanciamento, irritabilidade ou um envolvimento excessivo nos assuntos dos adultos, que às vezes é confundido com maturidade. Precisam de espaço e, ao mesmo tempo, de limites que se mantêm. É a idade em que o risco de se tornarem confidentes de um dos pais é maior, e é preciso resistir a isso.

Sinais que merecem atenção nas semanas seguintes

Alguma perturbação nas primeiras semanas é esperada e não é motivo de alarme. Merece atenção o que se instala e não passa:

Alterações do sono ou do apetite que se mantêm por mais de algumas semanas. Queda sustentada no rendimento escolar. Recusa em ir à escola. Afastamento dos amigos e das atividades de que gostava. Queixas físicas frequentes, como dores de cabeça ou de barriga, sem causa médica identificada. Agressividade nova ou tristeza persistente. Regressões que não se resolvem. Em adolescentes, isolamento marcado ou comportamentos de risco.

Quando estes sinais persistem para além de um ou dois meses, ou quando interferem claramente com a vida da criança, faz sentido procurar uma avaliação.

A parte que é sua

Há uma dimensão de que quase não se fala, e que costuma ser a que sustenta tudo o resto: uma separação é também uma perda para os adultos.

Termina uma relação, mas também termina a vida que se tinha imaginado, uma casa, uma rede de família, uma rotina. Este processo tem contornos de luto e é frequentemente vivido sem se lhe dar esse nome, porque quem se separa sente que não tem direito a sofrer por uma decisão que tomou.

Isto não é um detalhe emocional à margem. Um adulto que está a ser acompanhado consegue proteger melhor os filhos do conflito, manter melhor a rotina, e ter aquela conversa sem se desfazer a meio. Cuidar de si, neste período, é parte do cuidado com eles.

Onde entra o apoio psicológico, e onde não entra

A parte legal da separação, incluindo a regulação das responsabilidades parentais, a residência e a pensão de alimentos, pertence ao advogado e ao tribunal, e não é tratada aqui.

O acompanhamento psicológico trabalha outra coisa: preparar a conversa com os filhos, ajudar a criança ou o adolescente a lidar com o que mudou, apoiar os pais na comunicação entre si quando o conflito é elevado, e acompanhar o adulto no que esta transição significa para ele. São planos distintos e ambos contam.

Na Clínica Dra. Gizela Silva. O acompanhamento de crianças e adolescentes e o acompanhamento psicológico de adultos são realizados por psicóloga inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses, CP n.º 30963 · ERS E175678, na Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, em Vila Nova de Gaia, e também online, por videochamada, a partir de qualquer ponto do país.

Se houver violência ou receio pela sua segurança ou pela dos seus filhos, ligue 112. A Linha Nacional de Emergência Social atende no 144.

Fontes

Amato, P. R. (2001). Children of divorce in the 1990s: an update of the Amato and Keith (1991) meta-analysis. Journal of Family Psychology, 15(3), 355 a 370.

Kelly, J. B., e Emery, R. E. (2003). Children's adjustment following divorce: risk and resilience perspectives. Family Relations, 52(4), 352 a 362.

American Psychological Association. Healthy divorce: how to make your split as smooth as possible.

Perguntas frequentes

Dúvidas comuns

Qual é a melhor forma de contar aos filhos que nos vamos separar?

Sempre que possível, os dois pais em conjunto, com uma explicação combinada previamente, simples e sem culpados. Escolha um momento tranquilo, num sítio conhecido, com tempo depois para ficar com a criança, e nunca antes da escola ou à hora de deitar.

A separação vai deixar marcas no meu filho?

A maioria das crianças cujos pais se separam não desenvolve problemas duradouros. O que a investigação associa a dificuldades a longo prazo é sobretudo o nível de conflito entre os pais e a exposição da criança a esse conflito, mais do que a separação em si.

O que não devo dizer?

Evite culpar o outro progenitor, partilhar detalhes de adultos, pedir que a criança escolha, usá-la como mensageira entre os dois, ou prometer uma reconciliação que não vai acontecer.

O meu filho não reagiu. Isso é bom sinal?

Não necessariamente. Muitas crianças não reagem no momento, seja porque ainda estão a processar, seja porque estão a proteger os pais. Vale a pena voltar ao assunto nos dias seguintes e deixar claro que pode perguntar o que quiser.

Quando devo procurar apoio psicológico para o meu filho?

Quando as alterações no sono, no apetite, na escola ou nas relações persistem para além de um ou dois meses, ou quando interferem claramente com o dia a dia. Recusa em ir à escola, isolamento e queixas físicas frequentes merecem avaliação.

Este conteúdo tem caráter informativo. Cada avaliação e o respetivo plano são definidos individualmente, em conjunto com a profissional.

Está a preparar esta conversa?

O acompanhamento de crianças, de adolescentes e de adultos é realizado em Vila Nova de Gaia e online, em Portugal. Para marcar uma consulta ou esclarecer uma dúvida, entre em contacto. WhatsApp +351 963 740 792 · Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, Vila Nova de Gaia.

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Dra. Gizela Silva · Psicologia e Neurodesenvolvimento · Vila Nova de Gaia · CP n.º 30963 · ERS E175678