Introdução
Começa quase sempre da mesma maneira. Uma aposta num jogo de futebol, para dar mais emoção ao domingo. Um bónus de boas-vindas. Uma aplicação no telemóvel que está ali, a um toque, às onze da noite e às três da manhã. Durante algum tempo, é isso mesmo: um passatempo.
Para a maior parte das pessoas continua a ser. Para algumas, não. O jogo passa a ocupar os pensamentos, as perdas passam a exigir novas apostas para serem recuperadas, e aquilo que se esconde passa a ser mais do que aquilo que se mostra. Muitas vezes, quem dá pelo problema não é quem joga. É a companheira que abre um extrato bancário, a mãe que estranha mais um pedido de dinheiro, o filho que percebe que em casa já não se fala de certas coisas.
Este texto é para as duas pessoas: para quem joga e começa a desconfiar de si, e para quem vive ao lado e já não sabe o que pensar.
O que os números dizem em Portugal
O jogo online é legal e regulado em Portugal desde 2015, e o Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (SRIJ) publica todos os trimestres os dados do setor.
Somando os quatro relatórios trimestrais de 2025, a receita bruta dos operadores licenciados foi de cerca de 1,2 mil milhões de euros. A receita bruta é a diferença entre o total apostado e o total pago em prémios. Dito de outra forma, é aquilo que os jogadores perderam, em conjunto, num só ano. A tendência mantém-se em 2026: no segundo trimestre, a receita bruta cresceu 14,4% face ao mesmo período de 2025.
No final de 2025 existiam cerca de 4,9 milhões de registos de jogadores, dos quais cerca de 1,2 milhões com atividade de jogo no último trimestre. E 361,4 mil registos estavam autoexcluídos, ou seja, alguém tinha pedido para ser impedido de jogar. Um ano antes eram cerca de 292 mil. Estes números referem-se a registos e não a pessoas, porque a mesma pessoa pode ter conta em vários operadores, mas a direção é clara.
Do lado da saúde, o Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), a partir do inquérito nacional de 2022, indica que 1,3% da população apresenta sinais de risco e 0,6% sinais de dependência do jogo, sobretudo em homens entre os 25 e os 34 anos e entre os 45 e os 54. O número de pessoas em tratamento por perturbação de jogo nas equipas do ICAD passou de 358 em 2023 para 782 em 2025. E um estudo realizado no Dia da Defesa Nacional de 2024, citado pelo ICAD, indica que 16% dos jovens de 18 anos já apostam online.
Em junho de 2026 abriu em Lisboa a primeira unidade pública dedicada à dependência do jogo a dinheiro. Na equipa, ao lado de psiquiatras e psicólogos, há uma assistente social e um contabilista. Diz muito sobre aquilo que este problema faz a uma vida.
Porque é que as apostas online prendem
Não é uma questão de fraqueza. As apostas assentam num dos mecanismos de aprendizagem mais robustos que se conhecem, o reforço intermitente. Quando a recompensa chega de forma imprevisível, umas vezes sim e muitas vezes não, o comportamento torna-se mais persistente do que quando a recompensa é certa. É o mesmo princípio das máquinas de jogo, agora dentro do bolso.
A isto somam-se características próprias do jogo online. A aposta está disponível a qualquer hora, sem deslocação e sem testemunhas. O dinheiro deixou de ser notas na carteira e passou a ser um número num ecrã, o que torna a perda menos concreta. As apostas ao vivo permitem apostar de novo a cada minuto de um jogo. E as quase vitórias, o golo que por pouco não entrou, a combinação a que faltou um resultado, ativam no cérebro circuitos semelhantes aos de uma vitória, como mostrou um estudo de Luke Clark e colegas publicado em 2009 na revista Neuron, e aumentam a vontade de continuar.
Depois há o mecanismo que costuma marcar a passagem para o problema: tentar recuperar o que se perdeu. Cada perda passa a ser uma dívida que só uma nova aposta parece capaz de saldar. É aqui que os valores sobem, que entram os cartões de crédito e os créditos rápidos, e que o jogo deixa de ser sobre ganhar e passa a ser sobre não ter perdido.
Quando o jogo se torna uma perturbação
Aquilo a que se costuma chamar vício do jogo tem, na clínica, um nome: perturbação de jogo. É reconhecida como perturbação mental pelos dois grandes sistemas de classificação, o DSM-5-TR, da Associação Americana de Psiquiatria, e a CID-11, da Organização Mundial da Saúde. No DSM-5-TR, está no mesmo capítulo das perturbações relacionadas com substâncias, porque a investigação mostrou que partilha com elas mecanismos cerebrais e padrões de comportamento.
O que a caracteriza é um padrão persistente, ao longo de pelo menos doze meses, com prejuízo significativo. Os sinais descritos incluem precisar de apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma excitação, ficar inquieto ou irritável quando se tenta reduzir, tentar parar várias vezes sem conseguir, ter o pensamento frequentemente ocupado pelo jogo, jogar para aliviar a angústia, a culpa ou a tristeza, voltar no dia seguinte para recuperar o que se perdeu, mentir sobre quanto se joga, pôr em risco uma relação, um emprego ou um percurso de estudos, e depender de outras pessoas para resolver problemas financeiros causados pelo jogo.
Ninguém se diagnostica a partir de uma lista, e um fim de semana em que se apostou mais do que se devia não é uma perturbação. Mas quem se reconhece em vários destes sinais tem motivo para os levar a sério.
Há um dado que vale a pena conhecer. Uma meta-análise de Jennifer Theule e colegas, publicada em 2019, encontrou uma associação significativa, ainda que moderada, entre sintomas de PHDA e jogo problemático. A impulsividade, a procura de estimulação e a dificuldade em adiar a recompensa tornam as apostas online particularmente difíceis de gerir. Em adultos que nunca foram avaliados, perceber se existe uma PHDA no adulto pode mudar a forma como o problema é trabalhado.
O que o jogo faz a uma família
A perturbação de jogo raramente afeta só quem joga. Um estudo australiano de Belinda Goodwin e colegas, publicado em 2017, estimou que cada pessoa com problemas de jogo afeta, em média, seis outras: companheiros, filhos, pais, amigos, colegas.
Os danos seguem um padrão que a investigação descreve com detalhe. Primeiro são financeiros: poupanças que desaparecem, contas que ficam por pagar, créditos contraídos às escondidas ou em nome do casal. Depois são relacionais: a mentira, que muitas vezes magoa mais do que o dinheiro, a desconfiança, as discussões, o afastamento. E acabam por ser também de saúde, em quem joga e em quem vive ao lado, sob a forma de ansiedade, insónia, tristeza e esgotamento.
Não é exagero dizer que o jogo custa casas e casamentos. Há famílias que descobrem de uma só vez uma dívida acumulada ao longo de anos, uma prestação da casa em atraso, um empréstimo pedido a um familiar com uma desculpa qualquer. A separação, a perda da habitação e o corte de relações com a família alargada estão entre as consequências descritas.
Como a maioria das pessoas com perturbação de jogo são homens, são muitas vezes mulheres, companheiras e mães, que ficam do outro lado. Assumem sozinhas a gestão das dívidas e a proteção dos filhos, ao mesmo tempo que tentam manter uma aparência de normalidade, e atravessam um percurso próprio: a dúvida, a descoberta, o choque, a tentativa de controlar o outro, a vergonha de contar a alguém. Não é raro que só procurem ajuda para si quando já estão exaustas.
As crianças percebem mais do que parece. Sentem a tensão, a falta de dinheiro sem explicação, as promessas que não se cumprem. Precisam de uma explicação adequada à idade, que as tire do lugar da culpa. E, segundo o ICAD, na maior parte das vezes são os familiares que sinalizam as situações mais graves.
Se é consigo que isto se passa
O primeiro passo costuma ser o mais difícil: admitir, para si e para alguém, que o jogo deixou de estar sob controlo. Não precisa de ter a certeza de que é uma dependência para pedir ajuda.
Em Portugal existe uma ferramenta concreta e gratuita, a autoexclusão. Através da plataforma do SRIJ, pode pedir para ser impedido de jogar em todos os sites de jogos e apostas online licenciados no país, por um período mínimo de três meses ou por tempo indeterminado. Se o pedido for feito apenas no site de um operador, só vale para esse site. Há uma regra que protege a decisão: se quiser antecipar o fim da autoexclusão, o pedido só produz efeito um mês depois. Para os casinos existe um mecanismo semelhante, a proibição de acesso às salas de jogo, que não pode ser revogada enquanto estiver em vigor.
Ajuda também reduzir durante algum tempo o acesso ao dinheiro, por exemplo pedindo a alguém de confiança que acompanhe as contas, apagar as aplicações, bloquear os sites no telemóvel, e ser honesto sobre as dívidas que existem. E vale a pena assumir, para si próprio, que o que se perdeu não vai ser recuperado a jogar. A tentativa de recuperar é precisamente o que alimenta o ciclo.
A autoexclusão não trata a perturbação. Fecha uma porta e dá tempo para trabalhar o resto: porque se joga, o que o jogo alivia, o que fazer com o impulso quando ele aparece, como reparar o que ficou pelo caminho.
Se é alguém de quem gosta
Quando se suspeita que um companheiro, um filho adulto ou um pai tem um problema com o jogo, a primeira reação costuma ser confrontar, controlar ou resolver. É compreensível, e raramente resulta como se espera.
Algumas orientações são consensuais. Proteja primeiro a sua segurança financeira: separe contas, altere acessos, não assine créditos que não compreenda. Pode pedir ao Banco de Portugal o seu mapa de responsabilidades de crédito, para saber que créditos existem em seu nome. Não pague dívidas de jogo às escondidas nem sem um plano, porque isso tende a prolongar o problema. Escolha um momento calmo para conversar, fale do que observou e do que sente em vez de acusar, e diga com clareza o que precisa que mude. E procure apoio para si, mesmo que a outra pessoa ainda não esteja pronta.
A autoexclusão é uma decisão da própria pessoa, e não pode ser pedida por ela. O que pode fazer é dizer-lhe que existe e acompanhá-la no pedido.
Se já existem prestações em atraso ou em risco, a Rede de Apoio ao Consumidor Endividado (RACE), constituída por entidades reconhecidas pela Direção-Geral do Consumidor, presta informação, aconselhamento e acompanhamento gratuitos na negociação com as instituições de crédito.
Onde procurar apoio em Portugal
A Linha 1414, do ICAD, é um serviço de aconselhamento psicológico gratuito, anónimo e confidencial, assegurado por psicólogos clínicos. Funciona nos dias úteis, das 10 às 18 horas, e também por email, em 1414@icad.min-saude.pt. Pode ser usada por quem joga e também por familiares, amigos e companheiros.
O ICAD disponibiliza ainda um módulo de inscrição pública online, que permite pedir diretamente apoio especializado numa das suas equipas de tratamento. O acesso a estas respostas pode também ser feito através do médico de família. Para muitas pessoas, os grupos de ajuda mútua, para jogadores e para familiares, são um complemento importante.
Quando é urgente. A perturbação de jogo está associada a um risco aumentado de suicídio. Um estudo sueco de base nacional, publicado em 2018 por Anna Karlsson e Anders Håkansson, encontrou nas pessoas com este diagnóstico uma mortalidade por suicídio muito superior à da população geral, e o ICAD refere a ideação suicida entre as situações que surgem associadas ao jogo a dinheiro. Se tem pensamentos de pôr fim à vida, ou se receia que alguém próximo os tenha, ligue para o SNS 24, 808 24 24 24, ou, em caso de perigo imediato, para o 112.
O que a psicologia pode fazer
As abordagens psicológicas são a base do tratamento da perturbação de jogo. Uma revisão Cochrane de Sean Cowlishaw e colegas, publicada em 2012, concluiu que a terapia cognitivo-comportamental é a abordagem com mais evidência a curto prazo, e que as intervenções motivacionais também podem ajudar. A evidência sobre a manutenção dos ganhos a longo prazo é mais limitada, o que ajuda a perceber porque é que o acompanhamento não deve terminar cedo demais.
O trabalho incide sobre as crenças que sustentam o jogo, como a ideia de que se pode prever ou controlar um resultado, sobre os gatilhos, aquilo que acontece antes de apostar, e sobre as emoções que o jogo alivia. Com frequência existe também ansiedade, depressão ou uma PHDA por identificar, que precisam de ser avaliadas e acompanhadas. As recaídas são possíveis e fazem parte do processo. Não anulam o que se construiu.
A família pode fazer parte deste trabalho, e quem vive ao lado pode beneficiar de acompanhamento próprio, independentemente de a pessoa que joga já ter pedido ajuda.
Quando procurar apoio
Faz sentido procurar acompanhamento quando o jogo ocupa mais tempo, dinheiro ou pensamento do que gostaria, quando já tentou parar e não conseguiu, quando esconde o que joga de quem lhe é próximo, quando joga para fugir ao que sente, ou quando já existem dívidas. E faz sentido, do lado de quem vive ao lado, quando a desconfiança, a ansiedade ou a gestão das consequências começaram a ocupar a sua vida.
Na Clínica Dra. Gizela Silva. O acompanhamento psicológico de adultos, incluindo o apoio a familiares afetados pelo jogo, é realizado por psicóloga inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses, CP n.º 30963 · ERS E175678, na Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, em Vila Nova de Gaia, e também online, por videochamada, a partir de qualquer ponto do país. Sempre que a situação o justifique, o acompanhamento articula-se com as respostas especializadas do Serviço Nacional de Saúde.
Fontes
Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (2025 e 2026). Relatórios trimestrais de registo da atividade de jogo online em Portugal, 1.º a 4.º trimestres de 2025. Turismo de Portugal.
Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (2026, 6 de agosto). Atividade de jogo no 2.º trimestre de 2026. srij.turismodeportugal.pt.
Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos. Autoexclusão e proibição; Serviços de apoio ao jogador. srij.turismodeportugal.pt (consultado em setembro de 2026).
Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (2024). V Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral, Portugal 2022. Relatório final. ICAD.
Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (2026). Audição na Comissão de Economia e Coesão Territorial da Assembleia da República, 14 de janeiro de 2026, e declarações à agência Lusa sobre a Unidade de Intervenção no Jogo de Lisboa, junho de 2026.
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Direção-Geral do Consumidor e Banco de Portugal. Rede de Apoio ao Consumidor Endividado (RACE). consumidor.gov.pt; clientebancario.bportugal.pt.