ARTIGO

Vinculação ansiosa e evitante: o que é, e o que não é

Para lá do teste que fez online.

Sofá claro junto a uma janela ao fim da tarde, com uma manta dobrada e duas chávenas sobre a mesa.

Introdução

Fez o teste. Deu ansiosa, ou deu evitante, e por um momento algumas coisas fizeram sentido: a espera pela resposta que não chega, o desconforto quando alguém se aproxima a mais, o padrão que se repete de relação em relação.

Depois vem a parte menos útil. O rótulo cola-se, começa a explicar tudo, e passa a servir também para classificar quem está do outro lado. É aqui que vale a pena parar e distinguir o que a investigação sustenta daquilo que a internet acrescentou.

O que é a vinculação

A teoria da vinculação nasceu do trabalho de John Bowlby, nos anos cinquenta e sessenta, e do trabalho experimental de Mary Ainsworth com bebés e cuidadores. A ideia central é simples: nascemos com um sistema que nos leva a procurar proximidade de alguém que cuida, sobretudo quando estamos assustados, doentes ou em sofrimento.

A partir da repetição dessas experiências, cada pessoa constrói o que Bowlby chamou modelos internos: expectativas sobre se vale a pena pedir, e sobre se alguém estará lá quando pedir.

Em 1987, Cindy Hazan e Phillip Shaver propuseram que estes modelos continuam ativos nas relações adultas, sobretudo nas amorosas. É daí que vem tudo o que hoje se lê sobre o tema. Em português de Portugal, o termo técnico é vinculação. "Apego", que encontrará em muito conteúdo online, é a forma usada no Brasil e designa o mesmo.

Não são quatro caixas, são duas dimensões

Esta é a correção que mais muda a leitura, e a que a internet quase nunca faz.

Os instrumentos usados em investigação não arrumam as pessoas em tipos. Medem duas dimensões contínuas, propostas por Brennan, Clark e Shaver em 1998: a ansiedade de vinculação, que é o grau de preocupação com a disponibilidade do outro e com o abandono, e o evitamento, que é o grau de desconforto com a proximidade e com a dependência.

Toda a gente tem uma posição em cada uma destas dimensões. As categorias populares, seguro, ansioso, evitante e receoso, são apenas os cantos de um mapa desenhado por Bartholomew e Horowitz em 1991. São atalhos de conversa, não compartimentos.

A consequência prática interessa: não é verdade que se "seja" ansiosa ou evitante. Tem-se mais ou menos de cada coisa, e o valor pode ser moderado nas duas.

Como se manifesta a ansiedade de vinculação

Quem pontua alto nesta dimensão descreve, com frequência, um conjunto reconhecível de experiências.

O sistema de alarme dispara depressa, e uma mensagem sem resposta ou um tom mais seco bastam para instalar a ideia de que algo está errado. Vem a necessidade de resolver já, de perguntar outra vez, de confirmar que está tudo bem. Há uma leitura muito fina dos sinais do outro, por vezes fina demais, que encontra ameaça onde havia apenas cansaço.

Aparece também a dificuldade em nomear o que se precisa, com receio de afastar, e o esforço por não incomodar, que costuma acumular até sair de uma vez. E fica, por baixo, a dúvida sobre se se é suficiente.

Como se manifesta o evitamento

Do outro lado da mesma dificuldade, a estratégia é inversa.

A proximidade prolongada torna-se desconfortável e surge a necessidade de espaço, muitas vezes sem uma razão que se consiga explicar. Depende-se pouco dos outros, por princípio, e resolve-se sozinho o que se poderia partilhar. As conversas sobre a relação são adiadas, e o conflito é gerido pelo afastamento em vez do confronto.

As emoções tendem a ser desvalorizadas, nas próprias e nas dos outros, com a sensação genuína de que não são assim tão importantes. E a autonomia é vivida como um valor, o que às vezes é mesmo, e às vezes é a forma que a proteção encontrou.

É importante dizer isto com clareza, porque a internet trata mal esta dimensão: o evitamento não é frieza, nem falta de interesse, nem crueldade. É uma estratégia que se organizou para reduzir o risco de decepção, e costuma custar caro a quem a usa.

O que a internet acrescentou, e não devia

Três correções, por ordem de importância.

Não é um diagnóstico. Os estilos de vinculação, seguro, ansioso, evitante e desorganizado, são construtos de investigação e não constam do DSM-5-TR como categorias diagnósticas. Descrevem padrões nas relações próximas, não perturbações. Não se diagnostica ninguém com vinculação ansiosa, tal como não se diagnostica com vinculação segura.

Não é uma etiqueta para colar no outro. Uma parte considerável do conteúdo que circula serve para classificar o parceiro à distância, sobretudo com o rótulo de evitante, que virou quase um insulto. Decifrar alguém por um vídeo de trinta segundos evita precisamente aquilo que ajudaria, que é falar com essa pessoa.

Não é uma característica única e fixa. A investigação mostra que os padrões podem diferir entre relações. É possível funcionar de forma segura com amigos e ansiosa numa relação amorosa, ou o inverso. Um teste online de dez perguntas devolve uma média, não um retrato.

Se se reconheceu na descrição de um vídeo, isso por si só significa pouco. Descrições vagas encaixam em quase toda a gente, e é isso que as torna virais.

Estilo de vinculação e perturbação da vinculação não são a mesma coisa

Esta distinção perde-se quase sempre no conteúdo online, e importa.

Existem, de facto, perturbações da vinculação classificadas clinicamente. O DSM-5-TR descreve duas, no capítulo das perturbações relacionadas com trauma e com fatores de stress: a perturbação reativa da vinculação, marcada por retraimento emocional e ausência de procura de conforto, e a perturbação de envolvimento social desinibido, marcada por aproximação indiscriminada a adultos desconhecidos. A CID-11 classifica igualmente as duas.

São diagnósticos raros, feitos na infância, e exigem uma história de cuidados gravemente inadequados, como negligência grave, institucionalização ou mudanças repetidas de cuidador. A negligência é critério obrigatório, não um dado de contexto.

Nada disto se aplica a um adulto que se reconheceu num teste online. Um estilo de vinculação insegura é um padrão relacional comum na população geral. Uma perturbação da vinculação é uma condição clínica com critérios estritos. Tratar as duas como pontos da mesma escala é o erro mais frequente neste tema.

Quando não é vinculação

Esta parte raramente aparece nos conteúdos sobre o tema, e é a que mais muda o percurso de quem procura ajuda.

Alguns padrões que se leem como evitamento podem ter outra origem. A necessidade intensa de tempo sozinha depois de convívio social, o desconforto com contacto físico prolongado, a dificuldade em interpretar sinais implícitos ou a exaustão após interações longas são também descrições frequentes de mulheres que se reconhecem tardiamente no espetro do autismo, muitas vezes depois de anos a compensar em silêncio.

Do mesmo modo, a reação intensa a um sinal de rejeição, a dificuldade em regular a emoção depois de uma crítica e a inconstância nas relações aparecem com frequência em adultos com PHDA, sobretudo em mulheres cujo diagnóstico não foi feito na infância.

Não são a mesma coisa, e podem coexistir. Distinguir o que é padrão relacional do que é funcionamento neurológico faz parte de uma avaliação, e é o que permite trabalhar a coisa certa em vez do sintoma que está à vista.

Isto muda, ou fica assim?

Muda, e é sobre isto que existe evidência razoável.

Uma revisão sistemática de Taylor, Rietzschel, Danquah e Berry, publicada em 2015 na Psychotherapy Research, concluiu que a segurança de vinculação aumenta e a ansiedade de vinculação diminui ao longo do acompanhamento psicológico. Os resultados quanto ao evitamento são menos claros, o que os próprios autores assinalam. As melhorias foram observadas em diferentes populações e em diferentes abordagens terapêuticas.

Há também o conceito de segurança adquirida, que descreve adultos classificados como seguros apesar de uma história de infância marcada por cuidados inconsistentes. Os estudos disponíveis situam este grupo entre 8% e 20% das amostras, e o que parece distinguir estas pessoas não é terem tido uma infância melhor. É terem conseguido construir uma narrativa coerente sobre o que viveram.

A mudança é lenta, não é linear e raramente é completa. Não se troca de estilo como quem muda de opinião. O que se observa é uma revisão gradual daquilo que se espera das relações, à medida que a experiência acumulada contraria a expectativa antiga.

O que ajuda, e o que não ajuda

Saber o nome do padrão não muda o padrão. É um mapa, não é o caminho.

O que a investigação e a prática clínica sugerem é que a mudança vem de experiências relacionais repetidas que contrariem a expectativa: pedir e ser atendida, discordar e a relação manter-se, afastar-se e não ser abandonada. Uma experiência isolada não chega, e é a acumulação que atualiza o modelo.

O que costuma não ajudar é transformar o rótulo em identidade, exigir do outro que se adapte a um diagnóstico que ninguém fez, e usar o padrão como explicação para tudo o que corre mal.

Quando procurar apoio

Faz sentido procurar acompanhamento quando o mesmo padrão se repete em relações diferentes e já não parece coincidência, quando a preocupação com a relação ocupa uma parte desproporcionada do dia, quando a proximidade se tornou algo a gerir em vez de algo a viver, ou quando reconhece que se afasta antes de ser deixada. Quando a ansiedade e a regulação emocional são o centro da dificuldade, é por aí que se começa.

E faz sentido, também, quando simplesmente quer compreender-se melhor, sem que nada esteja em crise. Não é preciso um problema para procurar apoio.

O trabalho não consiste em substituir um rótulo por outro. Consiste em perceber como se organizou aquela forma de estar nas relações, o que ela protegia, e o que passa a ser possível quando a proteção deixa de ser necessária.

Na Clínica Dra. Gizela Silva. O acompanhamento psicológico de adultos é realizado por psicóloga inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses, CP n.º 30963 · ERS E175678, na Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, em Vila Nova de Gaia, e também online, por videochamada, a partir de qualquer ponto do país.

Fontes

Bowlby, J. (1969). Attachment and Loss, Vol. 1: Attachment. Basic Books.

Ainsworth, M. D. S., Blehar, M. C., Waters, E., e Wall, S. (1978). Patterns of Attachment. Lawrence Erlbaum.

Hazan, C., e Shaver, P. (1987). Romantic love conceptualized as an attachment process. Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 511 a 524.

Bartholomew, K., e Horowitz, L. M. (1991). Attachment styles among young adults: a test of a four-category model. Journal of Personality and Social Psychology, 61(2), 226 a 244.

Brennan, K. A., Clark, C. L., e Shaver, P. R. (1998). Self-report measurement of adult romantic attachment. In J. A. Simpson e W. S. Rholes (Eds.), Attachment Theory and Close Relationships. Guilford Press.

Taylor, P., Rietzschel, J., Danquah, A., e Berry, K. (2015). Changes in attachment representations during psychological therapy. Psychotherapy Research, 25(2), 222 a 238.

Zeanah, C. H., e Gleason, M. M. (2015). Annual research review: Attachment disorders in early childhood, clinical presentation, causes, correlates, and treatment. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 56(3), 207 a 222.

American Psychiatric Association (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5.ª ed., texto revisto; DSM-5-TR). APA.

Perguntas frequentes

Dúvidas comuns

Qual é a diferença entre vinculação ansiosa e evitante?

A ansiedade de vinculação traduz-se em preocupação com a disponibilidade do outro e com o abandono, com necessidade frequente de confirmação. O evitamento traduz-se em desconforto com a proximidade e com a dependência, com tendência a resolver sozinho e a adiar conversas sobre a relação.

O estilo de vinculação é um diagnóstico?

Não. Os estilos de vinculação são construtos de investigação e não constam do DSM-5-TR como categorias diagnósticas. Existem, isso sim, perturbações da vinculação classificadas clinicamente, como a perturbação reativa da vinculação, mas são diagnósticos raros, feitos na infância, e exigem uma história de cuidados gravemente inadequados. São coisas distintas.

Posso ser ansiosa e evitante ao mesmo tempo?

Sim. A investigação mede duas dimensões independentes, e é possível pontuar alto nas duas. As quatro categorias populares são apenas atalhos para descrever combinações dessas dimensões.

O estilo de vinculação pode mudar?

Pode. Uma revisão sistemática publicada em 2015 na Psychotherapy Research concluiu que a segurança de vinculação aumenta e a ansiedade diminui ao longo do acompanhamento psicológico. A mudança é gradual e raramente completa.

Os testes de estilo de vinculação online são fiáveis?

Dão uma indicação, não um resultado clínico. Costumam devolver uma categoria única quando o padrão pode variar entre relações, e reconhecer-se numa descrição genérica significa pouco por si só.

Este conteúdo tem caráter informativo. Cada avaliação e o respetivo plano são definidos individualmente, em conjunto com a profissional.

Reconhece este padrão nas suas relações?

O acompanhamento psicológico de adultos é realizado em Vila Nova de Gaia e online, em Portugal. Para marcar uma consulta ou esclarecer uma dúvida, entre em contacto. WhatsApp +351 963 740 792 · Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, Vila Nova de Gaia.

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Dra. Gizela Silva · Psicologia e Neurodesenvolvimento · Vila Nova de Gaia · CP n.º 30963 · ERS E175678