Introdução
Há semanas em que se levanta já cansada. O sono não repõe nada, a paciência acaba mais cedo do que costumava, e as coisas que antes davam gosto passaram a exigir um esforço que não compensa. Por fora, a vida continua a funcionar: o trabalho sai, a casa anda, as crianças chegam a horas à escola.
É frequente que este quadro seja explicado como uma fase, como excesso de trabalho ou como falta de descanso. Às vezes é mesmo isso. Outras vezes é depressão, e o que a torna difícil de reconhecer é precisamente o facto de não se parecer com a ideia que temos de uma pessoa deprimida.
Porque a depressão é mais frequente nas mulheres
A depressão é diagnosticada com mais frequência em mulheres do que em homens, e em Portugal essa diferença é a maior da União Europeia. O Perfil de Saúde de Portugal, publicado pela OCDE e pelo Observatório Europeu dos Sistemas e Políticas de Saúde, regista 2,2 mulheres por cada homem que reporta depressão, quando a média europeia é de 1,6 (OECD e European Observatory, 2023).
As razões são várias e somam-se. Há uma componente biológica, ligada às transições hormonais da vida da mulher, da adolescência à gravidez e à menopausa. Há uma componente social, com a sobrecarga de trabalho não pago, o cuidado dos filhos e o cuidado dos pais que envelhecem, que recai desproporcionadamente sobre as mulheres. E há uma componente clínica: as mulheres procuram ajuda com mais frequência, o que faz com que sejam também mais identificadas.
Este dado não serve para normalizar o sofrimento. Serve para o contrário: se é comum, merece ser tratado como um problema de saúde, e não como um traço de personalidade.
Os sinais que raramente se chamam depressão
A imagem corrente da depressão é a de alguém que chora e que não sai da cama. Existe, mas está longe de ser a apresentação mais comum. Aquilo que aparece com mais frequência em consulta é outra coisa:
Um cansaço que o descanso não resolve, e que se mantém mesmo depois de uma noite bem dormida ou de umas férias. Irritabilidade, com reações desproporcionadas a coisas pequenas, seguidas de culpa. Dificuldade de concentração, esquecimentos, releituras da mesma frase três vezes. Sono alterado, seja custar a adormecer, seja acordar às quatro da manhã sem voltar a dormir. Alterações do apetite, para mais ou para menos. Uma perda progressiva de interesse por aquilo que antes dava prazer, muitas vezes justificada com falta de tempo. E uma voz interior severa, que atribui tudo isto a preguiça ou a falta de organização.
O que distingue um período difícil de um quadro depressivo não é a intensidade de um dia. É a persistência ao longo de semanas, o facto de ocupar a maior parte do dia, e o impacto no trabalho, no sono e nas relações.
As fases da vida em que o risco aumenta
Há momentos do percurso de uma mulher em que a probabilidade de um episódio depressivo é maior, e reconhecê-los ajuda a não atribuir tudo ao acaso.
O período perinatal, que vai da gravidez ao primeiro ano após o parto, é um deles. A tristeza dos primeiros dias, muito comum, é diferente de um quadro que se instala e se mantém. Esta distinção é trabalhada na área de saúde mental materna.
A perimenopausa e a menopausa são outro. As oscilações hormonais deste período afetam o humor, o sono e a memória, e muitas mulheres descrevem que "deixaram de se reconhecer". Este tema tem página própria, em menopausa e equilíbrio emocional.
A que raramente se nomeia é a sobrecarga de cuidado prolongada: acompanhar um filho com uma perturbação do neurodesenvolvimento, cuidar de um familiar dependente, ou sustentar simultaneamente as duas coisas. O desgaste instala-se devagar e costuma ser confundido com falta de capacidade.
Nem tudo o que parece depressão é depressão
Esta é a parte que mais muda o percurso de quem procura ajuda. Cansaço persistente, dificuldade de concentração e humor em baixo não pertencem exclusivamente à depressão.
Há mulheres que chegam com um quadro depressivo de anos e percebem, ao longo do processo, uma dificuldade de atenção que as acompanha desde a infância e que nunca foi avaliada. A PHDA no feminino manifesta-se frequentemente de forma desatenta e silenciosa, passa despercebida na escola, e chega à idade adulta como uma sensação de estar sempre a correr atrás. Há também mulheres que se reconhecem tardiamente no espetro do autismo, depois de anos a compensar em silêncio.
Há ainda causas que pertencem à medicina e que devem ser despistadas: alterações da tiroide, anemia, défices vitamínicos e perturbações do sono produzem sintomas que se sobrepõem aos da depressão. E há o esgotamento profissional, que tem contornos próprios e é trabalhado em stress e burnout.
Distinguir estas situações é trabalho clínico e é o que permite escolher o acompanhamento adequado, em vez de tratar apenas o sintoma que está à vista.
Quando procurar uma avaliação
Faz sentido procurar uma avaliação quando os sinais descritos se mantêm durante duas semanas ou mais, na maior parte dos dias, e quando interferem com o funcionamento do dia a dia, com o trabalho, com o sono ou com as relações.
Não é preciso chegar ao limite para procurar apoio, e não é preciso ter uma razão que justifique. A depressão não obedece a circunstâncias externas, e esperar por uma explicação suficientemente grave costuma apenas adiar.
Se tem pensamentos de pôr fim à vida, não espere por uma consulta. Ligue para a Linha SNS 24, através do 808 24 24 24, ou dirija-se ao serviço de urgência mais próximo. Em situação de perigo imediato, 112.
O que acontece em consulta
O acompanhamento começa por uma consulta de avaliação, em que se percebe a história, o momento atual, os sintomas presentes e o que já foi tentado. É nesta fase que se distingue o que é depressão do que pode ser outra coisa, e que se define se faz sentido articular com o médico assistente.
O trabalho seguinte é adaptado a cada pessoa e costuma incluir a recuperação do sono e das rotinas, a relação com os pensamentos que se repetem, a regulação emocional, e o regresso gradual a atividades que foram ficando para trás. O acompanhamento psicológico não substitui a avaliação médica, e sempre que exista indicação para acompanhamento médico ou psiquiátrico esse encaminhamento é falado em consulta.
Na Clínica Dra. Gizela Silva. O acompanhamento psicológico da depressão em adultos é realizado por psicóloga inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses, CP n.º 30963 · ERS E175678, na Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, em Vila Nova de Gaia, e também online, por videochamada, a partir de qualquer ponto do país.
Fontes
OECD e European Observatory on Health Systems and Policies (2023). Portugal: Perfil de Saúde do País 2023. State of Health in the EU. OECD Publishing.
American Psychiatric Association (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5.ª ed., texto revisto; DSM-5-TR). APA.
World Health Organization (2023). Depressive disorder (depression). Fact sheet.