Introdução
A casa que demorou anos. A promoção pela qual se esperou. O carro, a viagem, o número na balança, a relação que finalmente aconteceu. Durante uns dias, ou umas semanas, foi tudo aquilo que se tinha imaginado.
E depois passou. Não aconteceu nada de errado. A casa continua lá, o trabalho continua lá. Simplesmente deixou de se sentir, e no lugar da satisfação instalou-se uma pergunta incómoda: se isto não chegou, o que é que chega?
Este processo tem nome, tem mais de cinquenta anos de investigação, e conhecê-lo muda a forma como se olha para essa pergunta.
O que é a adaptação hedónica
A adaptação hedónica é a tendência para regressar a um nível habitual de bem-estar depois de um acontecimento positivo ou negativo. A intensidade do que se sente diminui com o tempo, o novo torna-se normal, e o normal deixa de ser notado.
O termo foi proposto por Philip Brickman e Donald Campbell em 1971, com uma imagem que ficou: a passadeira hedónica. Por muito que se avance, o ponto de referência avança também, e a sensação de chegar não dura.
O mecanismo é, em grande parte, adaptativo. Um sistema que se habitua ao que é constante fica disponível para o que muda, e é essa disponibilidade que nos permite recuperar de perdas e de sustos. O custo é o outro lado: também nos habituamos ao que é bom.
O estudo que toda a gente cita, e o que ficou dele
Em 1978, Brickman, Coates e Janoff-Bulman compararam pessoas que tinham ganho a lotaria, pessoas que tinham ficado paraplégicas depois de um acidente, e um grupo de controlo. O resultado surpreendeu: os premiados não se declaravam mais felizes do que o grupo de controlo, e retiravam menos prazer das pequenas coisas do dia a dia. As vítimas de acidente estavam pior, mas muito menos do que se esperaria.
O estudo tinha limitações, e a versão simplificada que circula, a de que nada muda nada, não é o que a investigação posterior confirmou. Em 2006, Diener, Lucas e Scollon reviram a teoria com dados longitudinais de dezenas de milhares de pessoas e chegaram a uma conclusão mais precisa: a adaptação existe, mas não é total, não é igual para toda a gente, e não é igual para todos os acontecimentos.
Adaptamos mais depressa ao bom do que ao mau
Esta é a parte que a versão popular esquece, e a que mais importa em consulta.
Os estudos de Richard Lucas e colegas, a partir de um painel alemão que acompanhou mais de vinte e quatro mil pessoas ao longo de quinze anos, mostram que ao casamento a adaptação é quase completa em cerca de dois anos. Ao desemprego, não: mesmo depois de voltar a trabalhar, a satisfação com a vida não regressa ao nível anterior. À viuvez e ao divórcio, a recuperação é lenta e frequentemente incompleta.
O sistema não é simétrico. Habitua-se depressa ao que ganha e devagar ao que perde. É por isso que uma perda pode continuar a doer anos depois de tudo o resto ter mudado, e é também por isso que a alegria de uma conquista raramente dura o que se esperava.
Quando a adaptação se confunde com depressão
Há uma linha que vale a pena traçar com cuidado, porque os dois quadros produzem frases parecidas: "já nada me sabe bem".
Na adaptação hedónica, o que se perdeu foi a novidade de algo específico. O prazer continua disponível noutras coisas, o interesse pelo mundo mantém-se, e o que se sente é uma espécie de deceção com o resultado de uma conquista.
Na depressão, o que se perde é a capacidade de sentir prazer em geral, a chamada anedonia. Não é uma coisa que deixou de saber bem, é quase tudo, de forma persistente, na maior parte dos dias, acompanhada de cansaço, alterações do sono, dificuldade de concentração e uma voz interior severa. Em mulheres, este quadro apresenta-se com frequência sem tristeza visível, como cansaço e irritabilidade.
Quando o "nada chega" se alarga a toda a vida e se mantém durante semanas, não é adaptação. É motivo para uma avaliação.
Quando o cérebro se habitua mais depressa do que o dos outros
Há pessoas que descrevem a passadeira hedónica com uma velocidade fora do comum: o entusiasmo por um projeto novo que se esgota em dias, a necessidade de mudar de emprego, de cidade, de relação, sempre à procura do arranque inicial que depois desaparece.
Esta descrição aparece com frequência em adultos com PHDA, sobretudo em mulheres cujo diagnóstico não foi feito na infância. O modelo de dupla via de Sonuga-Barke, proposto em 2002, descreve, a par das dificuldades executivas, uma via motivacional marcada pela aversão à espera e pela preferência por recompensas imediatas. Na prática, o que é novo e o que é urgente mobilizam, e o que é constante desliga.
Não é falta de carácter nem incapacidade de se contentar. É uma forma de funcionamento que, sem ser identificada, se lê como inconstância, e que tem avaliação e acompanhamento próprios.
Nas crianças: a passadeira dos estímulos
O mesmo mecanismo opera nas crianças, e com uma particularidade: o ambiente digital oferece novidade contínua, sem pausa e sem esforço, e o cérebro em desenvolvimento habitua-se depressa a esse ritmo. O que vem a seguir, um jogo de tabuleiro, um livro, uma tarde sem plano, passa a parecer lento.
Não é um defeito da criança, e não se resolve com mais estímulos. O que a investigação do desenvolvimento aponta é no sentido oposto: tempo de tédio tolerado, atividades que exigem esforço antes da recompensa, e presença de adultos que aguentam a queixa do "não tenho nada para fazer" sem a resolver de imediato.
O que abranda a adaptação
Sheldon e Lyubomirsky testaram em 2012 um modelo que identifica dois fatores capazes de travar a adaptação a uma mudança positiva: a variedade das experiências ligadas a essa mudança, e a apreciação continuada dela. Uma casa nova deixa de ser sentida quando se torna apenas o sítio onde se dorme. Continua a ser sentida quando é usada de formas diferentes e quando se repara nela de propósito.
Da mesma linha de investigação vêm três observações frequentes. As experiências resistem melhor à adaptação do que os bens, porque não ficam a ocupar o mesmo lugar todos os dias. As atividades que exigem esforço e escolha resistem melhor do que as circunstâncias passivas. E as relações são, de todas as fontes de bem-estar, a que menos se gasta com o tempo, desde que sejam cuidadas.
Nenhuma destas coisas é uma receita, e apresentá-las como tal seria repetir o erro dos conteúdos de autoajuda. São direções que a investigação aponta, e que cada pessoa adapta ao que tem.
O que não abranda
Comprar o passo seguinte da passadeira. A aspiração sobe com a conquista, e o que se comparava com o que se tinha passa a comparar-se com o que os outros têm. As redes sociais amplificam isto de forma eficaz, porque mostram o resultado de todos os outros sem mostrar o processo.
Também não abranda a adaptação transformar cada momento bom numa obrigação de o sentir. A gratidão forçada, o diário preenchido por dever, a pressão para estar feliz com o que se tem, costumam produzir mais culpa do que bem-estar.
Quando procurar apoio
Faz sentido procurar acompanhamento quando a sensação de que nada chega se instala em todas as áreas da vida e se mantém, quando a procura constante de novidade começa a ter custos concretos no trabalho, nas finanças ou nas relações, quando uma perda continua a pesar anos depois sem qualquer atenuação, ou quando simplesmente quer compreender porque é que aquilo que conseguiu não lhe trouxe o que esperava.
O trabalho não consiste em aprender a contentar-se com menos. Consiste em distinguir o que é o funcionamento normal de um sistema que se habitua, o que pode ser outra coisa a pedir avaliação, e o que na sua vida vale a pena continuar a reparar.
Na Clínica Dra. Gizela Silva. O acompanhamento psicológico de adultos e a avaliação de PHDA na idade adulta são realizados por psicóloga inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses, CP n.º 30963 · ERS E175678, na Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, em Vila Nova de Gaia, e também online, por videochamada, a partir de qualquer ponto do país.
Fontes
Brickman, P., e Campbell, D. T. (1971). Hedonic relativism and planning the good society. In M. H. Appley (Ed.), Adaptation-Level Theory. Academic Press.
Brickman, P., Coates, D., e Janoff-Bulman, R. (1978). Lottery winners and accident victims: is happiness relative? Journal of Personality and Social Psychology, 36(8), 917 a 927.
Diener, E., Lucas, R. E., e Scollon, C. N. (2006). Beyond the hedonic treadmill: revising the adaptation theory of well-being. American Psychologist, 61(4), 305 a 314.
Lucas, R. E., Clark, A. E., Georgellis, Y., e Diener, E. (2003). Reexamining adaptation and the set point model of happiness: reactions to changes in marital status. Journal of Personality and Social Psychology, 84(3), 527 a 539.
Lucas, R. E., Clark, A. E., Georgellis, Y., e Diener, E. (2004). Unemployment alters the set point for life satisfaction. Psychological Science, 15(1), 8 a 13.
Sheldon, K. M., e Lyubomirsky, S. (2012). The challenge of staying happier: testing the Hedonic Adaptation Prevention model. Personality and Social Psychology Bulletin, 38(5), 670 a 680.
Sonuga-Barke, E. J. S. (2002). Psychological heterogeneity in AD/HD: a dual pathway model of behaviour and cognition. Behavioural Brain Research, 130(1 a 2), 29 a 36.
American Psychiatric Association (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5.ª ed., texto revisto; DSM-5-TR). APA.