Introdução
O coração dispara sem motivo. Falta o ar, o peito aperta, as mãos tremem e formigam. Vem a certeza de que algo grave está a acontecer: um enfarte, um desmaio, a perda de controlo. Muitas vezes acontece no supermercado, ao volante ou a meio da noite, e acaba nas urgências com exames normais.
Pode ser um ataque de pânico, e é mais comum do que parece. Num inquérito internacional com quase 143 mil adultos de 25 países, publicado em 2016, cerca de 13% disseram ter tido pelo menos um ao longo da vida, mais de 1 em cada 8 pessoas. A maior parte nunca chega a ter uma perturbação de pânico. E, quando existe, há tratamento psicológico com boa evidência.
O que é um ataque de pânico?
É uma onda súbita de medo ou de mal-estar intenso, que atinge o pico em poucos minutos e vem acompanhada de sintomas físicos fortes. O corpo ativa o sistema de alarme que serve para reagir a um perigo, só que sem perigo à vista.
O manual de diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria, o DSM-5-TR, descreve treze sintomas possíveis e fala em ataque de pânico quando surgem pelo menos quatro. Agrupados, são estes:
· O coração acelera ou bate com força.
· Aparecem suores, tremores, arrepios ou ondas de calor.
· Surge falta de ar, sensação de sufoco ou de aperto na garganta.
· Há dor ou desconforto no peito, náuseas ou mal-estar no estômago.
· Vêm tonturas, sensação de desmaio, dormência ou formigueiro.
· A pessoa sente-se estranha a si própria ou ao que a rodeia.
· Instala-se o medo de perder o controlo, de enlouquecer ou de morrer.
A crise passa por si. Segundo o serviço de saúde britânico (NHS), a maior parte dura entre 5 e 20 minutos, embora o cansaço e a inquietação possam ficar durante o resto do dia.
Porque é que o corpo reage assim?
Porque o alarme dispara sem incêndio. A adrenalina acelera o coração e a respiração, e respirar depressa demais causa tonturas e formigueiro. São reações normais do corpo, só que fora de horas.
O que transforma o susto em pânico é a leitura dessas sensações. O modelo descrito pelo psicólogo David Clark em 1986 mostra o ciclo: o coração acelera, a pessoa pensa que está a ter um enfarte, o medo sobe, e o medo acelera ainda mais o coração. Cada volta confirma a anterior.
Não é fraqueza nem invenção. O primeiro ataque surge muitas vezes numa fase de stress acumulado, mas também pode aparecer num momento calmo, sem razão aparente. Segundo o DSM-5-TR, as mulheres são afetadas cerca de duas vezes mais do que os homens, e o problema começa geralmente no início da idade adulta.
Ataque de pânico ou problema de coração?
Só uma avaliação médica o pode dizer e, da primeira vez, deve ser feita. Dor no peito, falta de ar e palpitações também são sinais de doença cardíaca, de alterações do ritmo do coração ou da tiroide.
Num primeiro episódio, ou sempre que os sintomas forem diferentes do habitual, o caminho certo é a urgência ou o 112. Não é exagero nem perda de tempo.
Depois de uma avaliação que exclui causa física, voltar repetidamente às urgências pelos mesmos sintomas costuma alimentar o ciclo do medo. É nessa altura que faz sentido olhar para o pânico em si.
O que fazer durante uma crise?
Deixar a onda passar, em vez de lutar contra ela. Algumas orientações ajudam a atravessá-la:
· Dar nome ao que está a acontecer: é um ataque de pânico, é desconfortável e vai passar.
· Abrandar a respiração, com a expiração mais longa do que a inspiração, sem tentar respirar fundo à força.
· Ficar onde está, se for seguro, em vez de fugir da situação.
· Fixar a atenção no que está à volta: o que se vê, o que se ouve, o que se toca.
· Evitar medir a pulsação ou procurar sintomas na internet durante a crise.
Estas estratégias não impedem todas as crises. Servem para as atravessar com menos medo, e é o medo da próxima que mais costuma manter o problema.
Quando passa a ser uma perturbação de pânico?
Quando os ataques se repetem sem aviso e o medo de ter outro começa a mandar no dia a dia. O DSM-5-TR fala em perturbação de pânico quando, depois das crises, há pelo menos um mês de preocupação constante com a próxima ou mudanças de comportamento para a evitar.
No mesmo inquérito internacional de 2016, 1,7% dos adultos tinham tido uma perturbação de pânico ao longo da vida. É bem menos do que os 13% que tiveram um ataque, o que mostra que uma crise isolada, por si só, não é uma perturbação.
Com o tempo, muitas pessoas começam a evitar os sítios onde tiveram uma crise, ou onde seria difícil sair ou pedir ajuda: transportes, filas, centros comerciais, a autoestrada, atravessar a ponte para o Porto. É a agorafobia, que pode surgir com a perturbação de pânico e encolher a vida aos poucos.
Há também crises que acordam a pessoa. Numa revisão publicada em 2005, entre 44% e 71% das pessoas com perturbação de pânico relataram pelo menos um ataque durante o sono. Acontecem fora da fase dos sonhos, por isso não nascem de um pesadelo.
Como se trata a perturbação de pânico?
Com acompanhamento psicológico, que é a primeira linha de tratamento. As recomendações do NICE, o instituto britânico que define orientações clínicas, indicam a terapia cognitivo-comportamental, num total de 7 a 14 horas, em sessões semanais, ao longo de cerca de quatro meses.
Uma revisão Cochrane de 2016, que comparou as várias psicoterapias usadas no pânico, encontrou na terapia cognitivo-comportamental a evidência mais consistente. O trabalho costuma incluir compreender o ciclo do pânico, rever as interpretações catastróficas das sensações e voltar, de forma gradual, aos sítios e às sensações que passaram a ser evitados.
Em alguns casos, a medicação também entra no plano. Essa decisão é médica, do médico de família ou do psiquiatra, e o acompanhamento psicológico pode ser feito em paralelo.
Vale a pena esperar que passe sozinho?
Nem sempre. Um ataque isolado pode não voltar, mas, segundo o DSM-5-TR, a perturbação de pânico sem tratamento tende a durar, com fases melhores e piores.
O risco está no evitamento. Cada situação evitada parece trazer alívio, mas reforça a ideia de que era perigosa, e a lista de sítios a evitar continua a crescer. Não é preciso esperar por uma crise grave, nem ter a certeza do diagnóstico, para pedir ajuda.
Quando procurar apoio?
Vale a pena marcar consulta quando aparece uma destas situações:
· As crises repetem-se, mesmo com exames médicos normais.
· O medo da próxima crise ocupa grande parte do dia.
· Começou a evitar sítios, transportes ou situações por causa do pânico.
· As crises interrompem o sono.
· Recorre ao álcool ou a outras substâncias para conseguir enfrentar certas situações.
Uma dor no peito nova, intensa ou diferente do habitual pede avaliação médica imediata, na urgência ou pelo 112, mesmo em quem já teve ataques de pânico. Em situação de crise emocional, a linha SNS 24 (808 24 24 24) dá orientação a qualquer hora.
Na consulta · Dra. Gizela Silva
O acompanhamento psicológico de adultos com ataques de pânico e ansiedade é realizado pela psicóloga Dra. Gizela Silva, CP n.º 30963 · ERS E175678, na Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, em Vila Nova de Gaia, a poucos minutos do Porto, e também online, por videochamada, a partir de qualquer ponto do país.
A primeira consulta serve para perceber como são as crises, o que as antecede e o que mudou na vida desde que começaram. O plano é explicado antes de começar e articula-se, quando necessário, com o médico de família ou o psiquiatra.
Muitas pessoas chegam depois de várias idas às urgências e com receio de não serem levadas a sério. Os sintomas são reais, e a conversa parte daí.
Fontes
American Psychiatric Association, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5.ª ed., texto revisto (DSM-5-TR), 2022.
Organização Mundial da Saúde, Classificação Internacional de Doenças, 11.ª revisão (CID-11), 2022. Perturbação de pânico: código 6B01.
de Jonge P e colaboradores, Cross-national epidemiology of panic disorder and panic attacks in the World Mental Health Surveys, Depression and Anxiety, 2016, 33(12), 1155 a 1177.
Clark DM, A cognitive approach to panic, Behaviour Research and Therapy, 1986, 24(4), 461 a 470.
Craske MG e Tsao JCI, Assessment and treatment of nocturnal panic attacks, Sleep Medicine Reviews, 2005, 9(3), 173 a 184.
National Institute for Health and Care Excellence, Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management, CG113, 2011, última atualização em 2020.
Pompoli A e colaboradores, Psychological therapies for panic disorder with or without agoraphobia in adults: a network meta-analysis, Cochrane Database of Systematic Reviews, 2016, Issue 4, CD011004.
NHS, Panic disorder, informação para utentes, nhs.uk/mental-health/conditions/panic-disorder (consultado em outubro de 2026).