Introdução
O caminho mais longo, para não atravessar o tabuleiro superior da Ponte Luís I. A análise ao sangue adiada há três anos. As escadas até ao sexto andar, para não entrar no elevador. A viagem ao casamento no estrangeiro, cancelada por causa do avião. Quem vive assim sabe, muitas vezes, que o medo é exagerado. Saber isso não o faz diminuir.
Pode ser uma fobia, e é mais comum do que parece. Num conjunto de inquéritos coordenados pela Organização Mundial da Saúde em 22 países, com quase 125 mil adultos, publicado em 2017, cerca de 7,4% tinham tido uma fobia específica ao longo da vida, mais ou menos 1 em cada 14 pessoas. Menos de 1 em cada 4 das que tinham uma fobia no último ano recebeu algum tratamento. E há tratamento psicológico com boa evidência.
O que é uma fobia?
É um medo intenso perante algo concreto, muito maior do que o perigo real. Leva a evitar essa situação ou a suportá-la com grande sofrimento.
Ter medo não é ter uma fobia. O medo protege e passa quando o perigo passa. Na fobia, o medo surge quase sempre que a situação aparece, às vezes só de pensar nela, e mantém-se ao longo do tempo.
O manual de diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria, o DSM-5-TR, fala em fobia quando este padrão dura, em regra, seis meses ou mais e causa sofrimento ou limita a vida: o trabalho, as relações, as férias, os cuidados de saúde.
Que tipos de fobia existem?
Há três grandes grupos:
· Fobia específica: medo de um objeto ou de uma situação concreta. Os mais frequentes envolvem animais, como cães, aranhas ou insetos; o ambiente natural, como alturas, tempestades ou água; sangue, injeções e ferimentos; e situações como andar de avião ou de elevador, atravessar túneis e pontes, estar em sítios fechados ou conduzir.
· Ansiedade social, antes chamada fobia social: medo intenso de ser observado, avaliado ou de fazer má figura, por exemplo ao falar em público, comer à frente de outras pessoas ou entrar numa sala cheia.
· Agorafobia: medo de estar em sítios de onde seria difícil sair ou onde não haveria ajuda, como transportes públicos, espaços abertos, espaços fechados, filas e multidões, ou estar sozinho fora de casa.
Os nomes que acabam em fobia, como claustrofobia ou acrofobia, dizem qual é o objeto do medo. Para o tratamento, pesa mais o que a pessoa deixou de fazer por causa dele.
A agorafobia aparece muitas vezes ligada a ataques de pânico, um tema com artigo próprio neste site.
As fobias são comuns? Quando começam?
Estão entre as formas de ansiedade mais frequentes, e começam cedo. Nos inquéritos da Organização Mundial da Saúde publicados em 2017, a idade mediana de início da fobia específica foi de 8 anos, e o problema era mais frequente nas mulheres.
A ansiedade social também começa cedo, muitas vezes na infância ou na adolescência. Num outro conjunto de inquéritos da mesma iniciativa, com mais de 142 mil pessoas, cerca de 4% tiveram ansiedade social ao longo da vida, 1 em cada 25.
Nas crianças, muitos medos fazem parte do crescimento e passam: o escuro, os monstros, os cães. Segundo o DSM-5-TR, passa a ser fobia quando o medo se mantém há seis meses ou mais, é desproporcional para a idade e interfere com o dia a dia. Numa criança, aparece muitas vezes como choro, birras, ficar imóvel ou agarrar-se aos pais.
Porque é que o medo se mantém?
Porque o evitamento o mantém.
Cada vez que a pessoa evita a situação, sente alívio. Esse alívio ensina ao cérebro que fugir foi a decisão certa, e o medo fica confirmado. Como a pessoa nunca fica na situação até ao fim, não chega a aprender que era suportável. Com o tempo, o evitamento tende a alargar-se a situações parecidas.
Quanto à origem, nem sempre há uma explicação clara. Pode começar depois de uma experiência assustadora, de ver alguém com muito medo ou de ouvir repetidamente que algo é perigoso. O temperamento também pesa. Muitas pessoas não se lembram de quando começou.
Não é fraqueza nem falta de coragem: um mecanismo de proteção ficou ligado à situação errada.
Medo de agulhas e de sangue: porque é que há quem desmaie?
Porque, nesse medo, a tensão arterial e o ritmo cardíaco podem descer de repente. A descida vem depois de uma subida inicial e pode levar ao desmaio.
Na maioria das fobias, o coração acelera e a tensão sobe, sem esta descida. O DSM-5-TR descreve esta resposta, chamada vasovagal, como própria do medo de sangue, injeções e ferimentos.
As consequências são práticas: análises adiadas, vacinas por fazer, exames que ficam por marcar.
Há uma técnica psicológica pensada para estes casos, a tensão aplicada, testada num ensaio clínico de investigadores suecos publicado em 1991. A pessoa aprende a contrair os músculos dos braços, das pernas e do tronco para manter a tensão arterial e reduzir o risco de desmaio, enquanto se aproxima, aos poucos, daquilo que teme.
Como se trata uma fobia?
Com acompanhamento psicológico. Nas fobias específicas, a abordagem com mais evidência é a exposição gradual, dentro da terapia cognitivo-comportamental.
A exposição consiste em aproximar-se do que se teme de forma planeada, por etapas, e ficar o tempo suficiente para perceber que a situação é suportável. Começa pelo que custa menos e avança ao ritmo da pessoa.
Uma meta-análise publicada em 2008, que reuniu 33 ensaios clínicos sobre fobias específicas, concluiu que os tratamentos com exposição tinham efeitos grandes em comparação com a ausência de tratamento e superavam o placebo e outras psicoterapias.
Para algumas fobias específicas, existe um formato numa única sessão longa, de até três horas. Uma revisão do mesmo ano considerava a investigação favorável, mas pedia confirmação por equipas independentes, e na meta-análise os formatos com várias sessões tiveram resultados ligeiramente melhores.
Na ansiedade social, as orientações do NICE, o instituto britânico que define recomendações clínicas, indicam terapia cognitivo-comportamental individual desenvolvida especificamente para este problema. Nas crianças e nos adolescentes, pode ser individual ou em grupo, com a participação dos pais, sobretudo nas crianças mais novas.
Em alguns casos, sobretudo na ansiedade social, a medicação também pode entrar no plano. Essa decisão é médica, e o acompanhamento psicológico pode ser feito em paralelo.
Tratar uma fobia obriga a enfrentar o medo de uma vez?
Não.
A exposição não consiste em atirar a pessoa para aquilo que mais teme. Os passos são combinados antes, ordenados do mais fácil para o mais difícil, e nenhum avança sem acordo. Muitas vezes, o primeiro trabalho é compreender o medo: o que se pensa que vai acontecer, o que o corpo sente, o que se faz para o evitar.
Há desconforto, e ele faz parte do processo. A diferença é que, desta vez, é atravessado com preparação e acompanhamento.
Também não é preciso esperar que o medo se torne insuportável para pedir ajuda.
Quando procurar apoio?
Vale a pena marcar consulta quando aparece uma destas situações:
· O medo dura há meses e não diminui.
· Deixou de fazer coisas importantes por causa dele: viajar, conduzir, ir a uma consulta, aceitar um trabalho.
· Adia análises, vacinas ou exames por medo de agulhas ou de sangue.
· O medo de ser avaliado leva a evitar conversas, aulas ou reuniões.
· Numa criança, o medo dura há meses, é maior do que o esperado para a idade e interfere com a escola, o sono ou as rotinas da família.
Se o medo vem em crises súbitas, com o coração acelerado e falta de ar, sem ligação a uma situação concreta, pode tratar-se de ataques de pânico. Uma dor no peito nova ou diferente do habitual pede avaliação médica imediata, na urgência ou pelo 112. Em situação de crise emocional, a linha SNS 24 (808 24 24 24) dá orientação a qualquer hora.
Na consulta · Dra. Gizela Silva
O acompanhamento psicológico de crianças, adolescentes e adultos com fobias e outras formas de ansiedade é realizado pela psicóloga Dra. Gizela Silva, CP n.º 30963 · ERS E175678, na Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, em Vila Nova de Gaia, a poucos minutos do Porto, e também online, por videochamada, a partir de qualquer ponto do país.
A primeira consulta serve para perceber o que é temido, desde quando, o que deixou de se fazer por causa disso e o que mudou no dia a dia. Quando o plano inclui exposição, cada passo é combinado antes e feito ao ritmo da pessoa. Nas crianças, os pais participam no plano. Quando é útil, articula-se com o médico de família ou o psiquiatra.
Muitas pessoas têm vergonha de falar de um medo que elas próprias acham exagerado. A conversa parte daí, sem julgamento.
Fontes
American Psychiatric Association, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5.ª ed., texto revisto (DSM-5-TR), 2022.
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Wolitzky-Taylor KB e colaboradores, Psychological approaches in the treatment of specific phobias: a meta-analysis, Clinical Psychology Review, 2008, 28(6), 1021 a 1037.
Zlomke K e Davis TE, One-session treatment of specific phobias: a detailed description and review of treatment efficacy, Behavior Therapy, 2008, 39(3), 207 a 223.
Öst LG, Fellenius J e Sterner U, Applied tension, exposure in vivo, and tension-only in the treatment of blood phobia, Behaviour Research and Therapy, 1991, 29(6), 561 a 574.
National Institute for Health and Care Excellence, Social anxiety disorder: recognition, assessment and treatment, CG159, 2013.