ARTIGO

Terapia cognitivo-comportamental (TCC): o que é, como funciona e o que pode tratar

A terapia cognitivo-comportamental trabalha a ligação entre o que se pensa, o que se sente e o que se faz, com objetivos combinados desde o início. Saiba como é uma sessão, quantas costumam ser precisas, o que pode tratar nos adultos e o que a investigação diz sobre os resultados.

Mulher adulta de costas, sentada junto a uma janela com vista para os telhados de Gaia e do Porto, a escrever num caderno numa mesa de madeira, tema da terapia cognitivo-comportamental, Dra. Gizela Silva, psicologia em Vila Nova de Gaia.

Introdução

A preocupação que volta às três da manhã. O ataque de pânico no supermercado e, desde então, as compras feitas sempre noutro lado. A tristeza que pesa há meses e a frase «vou ver se passa». Quem procura ajuda para isto acaba quase sempre por ouvir falar de terapia cognitivo-comportamental, a TCC, e fica com a ideia de que é a terapia dos trabalhos de casa.

É uma das psicoterapias mais estudadas. Só na depressão, uma meta-análise publicada em 2023 na revista World Psychiatry reuniu 409 ensaios clínicos, com mais de 52 mil pessoas. Há, de facto, tarefas entre sessões. Mas a TCC não é uma lista de exercícios nem um curso de pensamento positivo.

O que é a terapia cognitivo-comportamental?

É uma psicoterapia estruturada, centrada no presente, que trabalha a forma como os pensamentos, as emoções e os comportamentos se alimentam uns aos outros.

Começou com o psiquiatra Aaron Beck, na Universidade da Pensilvânia, que publicou em 1963 o primeiro artigo sobre o que chamou terapia cognitiva. Hoje junta técnicas cognitivas, que olham para o que se pensa, e comportamentais, que mexem no que se faz. Daí o nome.

Um exemplo. Antes de uma reunião, surge o pensamento «vou bloquear e toda a gente vai reparar». O corpo reage com ansiedade, a pessoa arranja uma desculpa para faltar e sente alívio. Na reunião seguinte a ansiedade é maior, porque o evitamento nunca deixou pôr o medo à prova.

A TCC trabalha os dois lados deste ciclo: o que se pensa e o que se faz. Nas pessoas com autismo ou PHDA, precisa de adaptações próprias, explicadas no artigo sobre a TCC e a neurodivergência.

Que problemas a TCC pode tratar nos adultos?

Sobretudo ansiedade e depressão, mas a lista é mais longa.

Uma revisão publicada em 2012 identificou 269 meta-análises sobre a TCC e analisou 106 delas. O apoio mais forte surgiu nas perturbações de ansiedade, nas queixas físicas persistentes sem causa médica que as explique, no stress e na dificuldade em controlar a raiva.

As orientações clínicas indicam-na, entre outros casos, em:

· Ansiedade generalizada, a preocupação constante e difícil de parar.
· Ataques de pânico e perturbação de pânico.
· Fobias e ansiedade social.
· Depressão.
· Insónia crónica.
· Perturbação obsessivo-compulsiva, com uma técnica própria chamada exposição com prevenção de resposta.

Cada problema tem um protocolo próprio: a TCC para os ataques de pânico não é igual à TCC para a depressão.

A TCC ajuda na insónia?

Sim. É o primeiro tratamento recomendado para a insónia crónica nos adultos, de qualquer idade.

É a recomendação da orientação europeia para a insónia, atualizada em 2023 e publicada no Journal of Sleep Research. A versão para o sono chama-se TCC-I e costuma ter entre quatro e oito sessões.

Junta técnicas como a restrição do tempo passado na cama e o controlo de estímulos, que a mesma orientação aponta como as partes mais eficazes, e trabalha as preocupações que mantêm a pessoa acordada.

Os conselhos de higiene do sono, sozinhos, não chegam: a orientação europeia diz que não são um tratamento recomendado para a insónia crónica. A medicação para dormir é considerada quando a TCC-I não resulta, e é sempre uma decisão médica.

Como é uma sessão de TCC?

Tem uma estrutura, combinada com quem acompanha.

Em geral, começa por rever a semana e o que ficou combinado, escolhe-se um tema para trabalhar e termina com o que fica para fazer até à sessão seguinte. Os objetivos são definidos no início e revistos pelo caminho.

Ao longo do processo, usam-se ferramentas como:

· O registo de pensamentos, para apanhar o que passa pela cabeça nos momentos difíceis e olhar para isso com mais distância.
· A ativação comportamental, que traz de volta, aos poucos, as atividades que a depressão foi apagando.
· A exposição gradual, que ajuda a enfrentar, passo a passo e ao ritmo da pessoa, aquilo que se passou a evitar.
· A resolução de problemas, para as dificuldades que têm uma saída prática.

Entre sessões há tarefas, pensadas para a vida real de cada pessoa. Uma meta-análise de 2016, com 17 estudos e mais de 2300 pessoas, encontrou melhores resultados em quem fazia mais e melhor estas tarefas. É uma associação: não prova que sejam as tarefas, sozinhas, a fazer a diferença.

Quantas sessões de TCC são precisas?

Depende do problema e da pessoa, mas a TCC tem, em regra, princípio, meio e fim.

Como referência, as orientações do NICE, o instituto britânico que define orientações clínicas, e a orientação europeia para a insónia indicam:

· Na ansiedade generalizada, 12 a 15 sessões semanais, de cerca de uma hora.
· Nos ataques de pânico, um total de 7 a 14 horas, em sessões semanais, concluídas em até quatro meses.
· Na insónia crónica, quatro a oito sessões.

São números de referência, não uma regra. Quando há mais de um problema ao mesmo tempo, ou uma fase de vida difícil, o processo pode ser mais longo. O plano é combinado na primeira consulta e revisto ao longo do acompanhamento.

A TCC é pensar positivo?

Não.

O objetivo é pensar de forma mais realista, e não mais otimista. Um pensamento como «vou ser despedido» não é trocado por «vai correr tudo bem». É posto à prova: que factos o sustentam, que factos o contrariam, o que se diria a um amigo na mesma situação.

Também não ignora o passado. O foco está no que mantém o problema hoje, mas a história da pessoa entra quando ajuda a perceber de onde vêm certas regras, como «tenho de agradar a toda a gente».

E não se fica pelos pensamentos. Voltar aos sítios que se evitam, retomar rotinas e experimentar fazer as coisas de outra maneira é parte central do trabalho.

TCC ou medicação: qual escolher?

Muitas vezes não é uma escolha. E a decisão sobre medicação é sempre do médico.

Na meta-análise de 2023 sobre a depressão, a TCC e os antidepressivos tiveram resultados semelhantes no fim do tratamento. Seis a doze meses depois, a TCC mostrava alguma vantagem, mas os próprios autores lembram que essa conclusão assenta em poucos estudos. Juntar as duas foi melhor do que a medicação sozinha.

Na mesma análise, a TCC foi só ligeiramente melhor do que outras psicoterapias, e a diferença desaparecia em várias das contas feitas. Na depressão, a TCC é a psicoterapia com mais estudos publicados, mas não é o único caminho com resultados.

Quando procurar apoio?

Vale a pena marcar consulta quando aparece uma destas situações:

· A preocupação ou o medo começam a decidir o que faz e onde vai.
· A tristeza, o desânimo ou a falta de vontade duram há semanas e não aliviam.
· Dorme mal há meses e o cansaço já pesa no trabalho ou em casa.
· Há rituais ou verificações que ocupam tempo e são difíceis de travar.
· Já tentou resolver por conta própria, com livros ou aplicações, e o problema mantém-se.

Se surgirem pensamentos de morte ou de fazer mal a si próprio, o contacto não deve esperar. A linha SNS 24 (808 24 24 24) dá orientação a qualquer hora e, em perigo imediato, o número é o 112.

Na consulta · Dra. Gizela Silva

O acompanhamento psicológico de adultos é realizado pela psicóloga Dra. Gizela Silva, CP n.º 30963 · ERS E175678, na Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, em Vila Nova de Gaia, a poucos minutos do Porto, e também online, por videochamada, a partir de qualquer ponto do país.

No acompanhamento de adultos, em situações como a ansiedade, os ataques de pânico e as fobias, a depressão, o luto, o stress e o esgotamento ou a adaptação a uma doença crónica, a terapia cognitivo-comportamental é uma das abordagens usadas, ajustada a cada pessoa. Na primeira consulta percebe-se o que se passa e definem-se objetivos. O número de sessões e a frequência são combinados nessa altura e revistos ao longo do processo.

Quando há medicação, ou quando faz sentido ponderá-la, o acompanhamento articula-se com o médico de família ou com o psiquiatra, a quem cabe essa decisão. Não é preciso ter um diagnóstico nem encaminhamento médico para marcar.

Fontes

Batastini AB e colaboradores, Are videoconferenced mental and behavioral health services just as good as in-person? A meta-analysis of a fast-growing practice, Clinical Psychology Review, 2021, 83, 101944.

Beck Institute for Cognitive Behavior Therapy, Dr. Aaron T. Beck, página institucional.

Cuijpers P e colaboradores, Cognitive behavior therapy vs. control conditions, other psychotherapies, pharmacotherapies and combined treatment for depression: a comprehensive meta-analysis including 409 trials with 52,702 patients, World Psychiatry, 2023, 22(1), 105 a 115.

Gould RL e colaboradores, Cognitive behavioral therapy for depression in older people: a meta-analysis and meta-regression of randomized controlled trials, Journal of the American Geriatrics Society, 2012, 60(10), 1817 a 1830.

Hofmann SG e colaboradores, The efficacy of cognitive behavioral therapy: a review of meta-analyses, Cognitive Therapy and Research, 2012, 36(5), 427 a 440.

Kazantzis N e colaboradores, Quantity and quality of homework compliance: a meta-analysis of relations with outcome in cognitive behavior therapy, Behavior Therapy, 2016.

National Institute for Health and Care Excellence, Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management, CG113, 2011.

National Institute for Health and Care Excellence, Obsessive-compulsive disorder and body dysmorphic disorder: treatment, CG31, 2005.

Riemann D e colaboradores, The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023, Journal of Sleep Research, 2023, 32(6), e14035.

Williams ACdC e colaboradores, Psychological therapies for the management of chronic pain (excluding headache) in adults, Cochrane Database of Systematic Reviews, 2020, CD007407.

Perguntas frequentes

Dúvidas comuns

A terapia cognitivo-comportamental funciona online?

Sim. Uma meta-análise publicada em 2021, com 57 estudos, encontrou resultados em grande parte equivalentes entre as consultas de saúde mental por videochamada e as presenciais. Os autores lembram que ainda há poucos ensaios aleatorizados a comparar os dois formatos.

Posso fazer TCC por conta própria, com um livro ou uma aplicação?

Pode ajudar, mas costuma ajudar menos. Na meta-análise de 2023 sobre a depressão, a autoajuda sem acompanhamento teve um efeito mais pequeno do que a TCC feita com um terapeuta. Na insónia, a orientação europeia aceita versões digitais, de preferência com acompanhamento.

A TCC também é indicada para pessoas mais velhas?

Sim. Numa meta-análise de 2012, com 23 ensaios e mais de 1800 pessoas com idade média de 68 anos, a TCC foi mais eficaz na depressão do que a lista de espera ou os cuidados habituais, e a diferença mantinha-se seis meses depois. Não mostrou vantagem sobre outras formas de acompanhamento ativo.

A TCC ajuda na dor crónica?

Pode ajudar, mas o efeito é pequeno. Uma revisão Cochrane de 2020, com 59 estudos e mais de 5000 pessoas, encontrou benefícios pequenos na dor e no sofrimento, em comparação com os cuidados habituais. Entra como complemento do acompanhamento médico, não como substituto.

Na TCC fala-se da infância?

Pode falar-se, mas não é o centro. O trabalho foca-se no que mantém o problema hoje. O passado entra quando ajuda a perceber padrões que ainda pesam.

E se a TCC não resultar comigo?

Revê-se o plano. Às vezes é preciso ajustar os objetivos ou o ritmo. Outras psicoterapias têm resultados próximos dos da TCC e, em alguns casos, a medicação, decidida pelo médico, entra no plano.

Preciso de encaminhamento médico para fazer TCC?

Não. A consulta de psicologia pode ser marcada diretamente, sem encaminhamento médico. Se já houver acompanhamento médico ou medicação, isso é falado na primeira consulta.

Este conteúdo tem carácter informativo e não substitui uma avaliação psicológica. Cada acompanhamento e o respetivo plano são definidos individualmente, em conjunto com a profissional. As decisões sobre medicação cabem ao médico que acompanha a pessoa.

Quer perceber se a TCC faz sentido para si?

O acompanhamento psicológico de adultos é realizado em Vila Nova de Gaia e online, em Portugal. Para marcar uma consulta ou esclarecer uma dúvida, entre em contacto. WhatsApp +351 963 740 792 · Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, Vila Nova de Gaia.

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Dra. Gizela Silva · Psicologia e Neurodesenvolvimento · Vila Nova de Gaia · CP n.º 30963 · ERS E175678