Terapia cognitivo-comportamental (TCC): o que é, como funciona e o que pode tratar
A terapia cognitivo-comportamental trabalha a ligação entre o que se pensa, o que se sente e o que se faz, com objetivos combinados desde o início. Saiba como é uma sessão, quantas costumam ser precisas, o que pode tratar nos adultos e o que a investigação diz sobre os resultados.
Dra. Gizela Silva · Psicóloga · CP n.º 30963 · ERS E175678Publicado a
A preocupação que volta às três da manhã. O ataque de pânico no supermercado e, desde então, as compras feitas sempre noutro lado. A tristeza que pesa há meses e a frase «vou ver se passa». Quem procura ajuda para isto acaba quase sempre por ouvir falar de terapia cognitivo-comportamental, a TCC, e fica com a ideia de que é a terapia dos trabalhos de casa.
É uma das psicoterapias mais estudadas. Só na depressão, uma meta-análise publicada em 2023 na revista World Psychiatry reuniu 409 ensaios clínicos, com mais de 52 mil pessoas. Há, de facto, tarefas entre sessões. Mas a TCC não é uma lista de exercícios nem um curso de pensamento positivo.
O que é a terapia cognitivo-comportamental?
É uma psicoterapia estruturada, centrada no presente, que trabalha a forma como os pensamentos, as emoções e os comportamentos se alimentam uns aos outros.
Começou com o psiquiatra Aaron Beck, na Universidade da Pensilvânia, que publicou em 1963 o primeiro artigo sobre o que chamou terapia cognitiva. Hoje junta técnicas cognitivas, que olham para o que se pensa, e comportamentais, que mexem no que se faz. Daí o nome.
Um exemplo. Antes de uma reunião, surge o pensamento «vou bloquear e toda a gente vai reparar». O corpo reage com ansiedade, a pessoa arranja uma desculpa para faltar e sente alívio. Na reunião seguinte a ansiedade é maior, porque o evitamento nunca deixou pôr o medo à prova.
A TCC trabalha os dois lados deste ciclo: o que se pensa e o que se faz. Nas pessoas com autismo ou PHDA, precisa de adaptações próprias, explicadas no artigo sobre a TCC e a neurodivergência.
Que problemas a TCC pode tratar nos adultos?
Sobretudo ansiedade e depressão, mas a lista é mais longa.
Uma revisão publicada em 2012 identificou 269 meta-análises sobre a TCC e analisou 106 delas. O apoio mais forte surgiu nas perturbações de ansiedade, nas queixas físicas persistentes sem causa médica que as explique, no stress e na dificuldade em controlar a raiva.
As orientações clínicas indicam-na, entre outros casos, em:
· Ansiedade generalizada, a preocupação constante e difícil de parar. · Ataques de pânico e perturbação de pânico. · Fobias e ansiedade social. · Depressão. · Insónia crónica. · Perturbação obsessivo-compulsiva, com uma técnica própria chamada exposição com prevenção de resposta.
Cada problema tem um protocolo próprio: a TCC para os ataques de pânico não é igual à TCC para a depressão.
A TCC ajuda na insónia?
Sim. É o primeiro tratamento recomendado para a insónia crónica nos adultos, de qualquer idade.
É a recomendação da orientação europeia para a insónia, atualizada em 2023 e publicada no Journal of Sleep Research. A versão para o sono chama-se TCC-I e costuma ter entre quatro e oito sessões.
Junta técnicas como a restrição do tempo passado na cama e o controlo de estímulos, que a mesma orientação aponta como as partes mais eficazes, e trabalha as preocupações que mantêm a pessoa acordada.
Os conselhos de higiene do sono, sozinhos, não chegam: a orientação europeia diz que não são um tratamento recomendado para a insónia crónica. A medicação para dormir é considerada quando a TCC-I não resulta, e é sempre uma decisão médica.
Como é uma sessão de TCC?
Tem uma estrutura, combinada com quem acompanha.
Em geral, começa por rever a semana e o que ficou combinado, escolhe-se um tema para trabalhar e termina com o que fica para fazer até à sessão seguinte. Os objetivos são definidos no início e revistos pelo caminho.
Ao longo do processo, usam-se ferramentas como:
· O registo de pensamentos, para apanhar o que passa pela cabeça nos momentos difíceis e olhar para isso com mais distância. · A ativação comportamental, que traz de volta, aos poucos, as atividades que a depressão foi apagando. · A exposição gradual, que ajuda a enfrentar, passo a passo e ao ritmo da pessoa, aquilo que se passou a evitar. · A resolução de problemas, para as dificuldades que têm uma saída prática.
Entre sessões há tarefas, pensadas para a vida real de cada pessoa. Uma meta-análise de 2016, com 17 estudos e mais de 2300 pessoas, encontrou melhores resultados em quem fazia mais e melhor estas tarefas. É uma associação: não prova que sejam as tarefas, sozinhas, a fazer a diferença.
Quantas sessões de TCC são precisas?
Depende do problema e da pessoa, mas a TCC tem, em regra, princípio, meio e fim.
Como referência, as orientações do NICE, o instituto britânico que define orientações clínicas, e a orientação europeia para a insónia indicam:
· Na ansiedade generalizada, 12 a 15 sessões semanais, de cerca de uma hora. · Nos ataques de pânico, um total de 7 a 14 horas, em sessões semanais, concluídas em até quatro meses. · Na insónia crónica, quatro a oito sessões.
São números de referência, não uma regra. Quando há mais de um problema ao mesmo tempo, ou uma fase de vida difícil, o processo pode ser mais longo. O plano é combinado na primeira consulta e revisto ao longo do acompanhamento.
A TCC é pensar positivo?
Não.
O objetivo é pensar de forma mais realista, e não mais otimista. Um pensamento como «vou ser despedido» não é trocado por «vai correr tudo bem». É posto à prova: que factos o sustentam, que factos o contrariam, o que se diria a um amigo na mesma situação.
Também não ignora o passado. O foco está no que mantém o problema hoje, mas a história da pessoa entra quando ajuda a perceber de onde vêm certas regras, como «tenho de agradar a toda a gente».
E não se fica pelos pensamentos. Voltar aos sítios que se evitam, retomar rotinas e experimentar fazer as coisas de outra maneira é parte central do trabalho.
TCC ou medicação: qual escolher?
Muitas vezes não é uma escolha. E a decisão sobre medicação é sempre do médico.
Na meta-análise de 2023 sobre a depressão, a TCC e os antidepressivos tiveram resultados semelhantes no fim do tratamento. Seis a doze meses depois, a TCC mostrava alguma vantagem, mas os próprios autores lembram que essa conclusão assenta em poucos estudos. Juntar as duas foi melhor do que a medicação sozinha.
Na mesma análise, a TCC foi só ligeiramente melhor do que outras psicoterapias, e a diferença desaparecia em várias das contas feitas. Na depressão, a TCC é a psicoterapia com mais estudos publicados, mas não é o único caminho com resultados.
Quando procurar apoio?
Vale a pena marcar consulta quando aparece uma destas situações:
· A preocupação ou o medo começam a decidir o que faz e onde vai. · A tristeza, o desânimo ou a falta de vontade duram há semanas e não aliviam. · Dorme mal há meses e o cansaço já pesa no trabalho ou em casa. · Há rituais ou verificações que ocupam tempo e são difíceis de travar. · Já tentou resolver por conta própria, com livros ou aplicações, e o problema mantém-se.
Se surgirem pensamentos de morte ou de fazer mal a si próprio, o contacto não deve esperar. A linha SNS 24 (808 24 24 24) dá orientação a qualquer hora e, em perigo imediato, o número é o 112.
Na consulta · Dra. Gizela Silva
O acompanhamento psicológico de adultos é realizado pela psicóloga Dra. Gizela Silva, CP n.º 30963 · ERS E175678, na Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, em Vila Nova de Gaia, a poucos minutos do Porto, e também online, por videochamada, a partir de qualquer ponto do país.
No acompanhamento de adultos, em situações como a ansiedade, os ataques de pânico e as fobias, a depressão, o luto, o stress e o esgotamento ou a adaptação a uma doença crónica, a terapia cognitivo-comportamental é uma das abordagens usadas, ajustada a cada pessoa. Na primeira consulta percebe-se o que se passa e definem-se objetivos. O número de sessões e a frequência são combinados nessa altura e revistos ao longo do processo.
Quando há medicação, ou quando faz sentido ponderá-la, o acompanhamento articula-se com o médico de família ou com o psiquiatra, a quem cabe essa decisão. Não é preciso ter um diagnóstico nem encaminhamento médico para marcar.
Fontes
Batastini AB e colaboradores, Are videoconferenced mental and behavioral health services just as good as in-person? A meta-analysis of a fast-growing practice, Clinical Psychology Review, 2021, 83, 101944.
Beck Institute for Cognitive Behavior Therapy, Dr. Aaron T. Beck, página institucional.
Cuijpers P e colaboradores, Cognitive behavior therapy vs. control conditions, other psychotherapies, pharmacotherapies and combined treatment for depression: a comprehensive meta-analysis including 409 trials with 52,702 patients, World Psychiatry, 2023, 22(1), 105 a 115.
Gould RL e colaboradores, Cognitive behavioral therapy for depression in older people: a meta-analysis and meta-regression of randomized controlled trials, Journal of the American Geriatrics Society, 2012, 60(10), 1817 a 1830.
Hofmann SG e colaboradores, The efficacy of cognitive behavioral therapy: a review of meta-analyses, Cognitive Therapy and Research, 2012, 36(5), 427 a 440.
Kazantzis N e colaboradores, Quantity and quality of homework compliance: a meta-analysis of relations with outcome in cognitive behavior therapy, Behavior Therapy, 2016.
National Institute for Health and Care Excellence, Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management, CG113, 2011.
National Institute for Health and Care Excellence, Obsessive-compulsive disorder and body dysmorphic disorder: treatment, CG31, 2005.
Riemann D e colaboradores, The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023, Journal of Sleep Research, 2023, 32(6), e14035.
Williams ACdC e colaboradores, Psychological therapies for the management of chronic pain (excluding headache) in adults, Cochrane Database of Systematic Reviews, 2020, CD007407.
Perguntas frequentes
Dúvidas comuns
A terapia cognitivo-comportamental funciona online?
Sim. Uma meta-análise publicada em 2021, com 57 estudos, encontrou resultados em grande parte equivalentes entre as consultas de saúde mental por videochamada e as presenciais. Os autores lembram que ainda há poucos ensaios aleatorizados a comparar os dois formatos.
Posso fazer TCC por conta própria, com um livro ou uma aplicação?
Pode ajudar, mas costuma ajudar menos. Na meta-análise de 2023 sobre a depressão, a autoajuda sem acompanhamento teve um efeito mais pequeno do que a TCC feita com um terapeuta. Na insónia, a orientação europeia aceita versões digitais, de preferência com acompanhamento.
A TCC também é indicada para pessoas mais velhas?
Sim. Numa meta-análise de 2012, com 23 ensaios e mais de 1800 pessoas com idade média de 68 anos, a TCC foi mais eficaz na depressão do que a lista de espera ou os cuidados habituais, e a diferença mantinha-se seis meses depois. Não mostrou vantagem sobre outras formas de acompanhamento ativo.
A TCC ajuda na dor crónica?
Pode ajudar, mas o efeito é pequeno. Uma revisão Cochrane de 2020, com 59 estudos e mais de 5000 pessoas, encontrou benefícios pequenos na dor e no sofrimento, em comparação com os cuidados habituais. Entra como complemento do acompanhamento médico, não como substituto.
Na TCC fala-se da infância?
Pode falar-se, mas não é o centro. O trabalho foca-se no que mantém o problema hoje. O passado entra quando ajuda a perceber padrões que ainda pesam.
E se a TCC não resultar comigo?
Revê-se o plano. Às vezes é preciso ajustar os objetivos ou o ritmo. Outras psicoterapias têm resultados próximos dos da TCC e, em alguns casos, a medicação, decidida pelo médico, entra no plano.
Preciso de encaminhamento médico para fazer TCC?
Não. A consulta de psicologia pode ser marcada diretamente, sem encaminhamento médico. Se já houver acompanhamento médico ou medicação, isso é falado na primeira consulta.
Este conteúdo tem carácter informativo e não substitui uma avaliação psicológica. Cada acompanhamento e o respetivo plano são definidos individualmente, em conjunto com a profissional. As decisões sobre medicação cabem ao médico que acompanha a pessoa.
Quer perceber se a TCC faz sentido para si?
O acompanhamento psicológico de adultos é realizado em Vila Nova de Gaia e online, em Portugal. Para marcar uma consulta ou esclarecer uma dúvida, entre em contacto. WhatsApp +351 963 740 792 · Av. dos Descobrimentos 1193I, sala E6, Vila Nova de Gaia.